Site pessoal de (Ana) Lou de Olivier 
   Casa      A irmandade

Lou de Olivier


(Analou)



A irmandade

(GT Martup)

(relato autobiográfico)

1a edição

© Todos os direitos reservados

Parte integrante da Biografia Autorizada de Lou de Olivier. Proibida qualquer reprodução parcial ou total por quaisquer meios.

São Paulo – SP

Ana Lourdes de Oliveira

- Editora Independente

2016



A princípio, pensei em escrever um livro em forma de romance mas notei que um livro seria longo, revelaria muitos detalhes que são só nossos. Não ficaria bem trazer ao público. Depois pensei em criar uma linda poesia mas uma poesia não expressaria tudo que sinto e quero compartilhar sobre nós. Pensei então numa prosa poética, talvez expressasse na medida exata o principal de nós e de nossa relação... Por último, pensei que não deveria me preocupar com gêneros literários, eu deveria apenas ouvir meu coração e escrever...

Assim nasce meu texto:

A Irmandade
(GT MARTUP)



ISBN: 978-85-922079-0-8

© Lou de Olivier (Ana Lourdes de Oliveira)

São Paulo – SP - Brasil ano 2016



Dedicado a (em ordem alfabética):

Andréa Ana Dias;

Ângela Câmara Correia;

Batista;

Clementina Nastari - (nossa professora e precursora da Musicoterapia no Brasil);

Eneida Soller (nossa professora e sempre militante cultural);

Erasmo de Oliveira (meu irmão que atrasava o relógio para eu madrugar na noite);

Eudimir Fraga (nosso professor e grande incentivador da minha carreira como Escritora);

Gilberto Vieira;

Jacymara de Oliveira - (in memoriam);

Lúcio Navarro (nosso professor e diretor);

Márcia Manfredini;

Maria Regina Ribeiro;

Sílvia Ramalho (nossa professora e coreografa);

Silvano Sodré;

Valéria Poyares - (in memoriam);

Wanda Hamburgo;

Celeste Kutscka, Celso Tera; E todos os colegas e amigos que conviveram e compartilharam comigo esta época inesquecível!

Sumário:

Sumário



A Irmandade (GT MARTUP)

  1. Capítulo I


Acho que era janeiro, o ano era 1982 e meu pai havia aceitado que eu tentasse o vestibular para Artes Cênicas. Na verdade, ele tinha o sonho de me ver formada em Medicina ou Direito. Essas eram as faculdades que ele cursou e, apesar de não exercê-las, ele queria, talvez inconscientemente, que eu seguisse o caminho que ele próprio interrompeu. Mas eu ainda tinha graves sequelas do meu afogamento aos dezesseis anos. Esse afogamento nem vou relatar porque já escrevi muito sobre isso, o que preciso frisar é que eu tinha grandes falhas de memória, às vezes esquecia até meu próprio nome,. Era comum eu sair dirigindo e parar em meio ao nada, sem me importar com as buzinas e os xingamentos e ficar tentando lembrar para onde eu estava indo. Além disso, eu tinha traumas graves causados por rituais religiosos a que fui submetida depois de ser desenganada pela Medicina...

Resumindo, eu não tinha a mínima condição de cursar Medicina ou Direito. Eu até tentei mas, no dia em que deveria prestar vestibular para Direito eu perdi a hora e no dia do vestibular para Medicina eu cheguei a tempo mas descobri no portão da Universidade que eu havia esquecido a ficha de inscrição. E, sem ela, não me deixaram entrar. Era uma forma inconsciente da minha mente me avisar que eu não estava em condições de estudar algo complexo como Medicina ou Advocacia.

Mas não menosprezando as Artes que também são excelentes, apenas necessitam mais da criatividade do que da razão e isso eu tinha de sobra. Por isso, animadamente fui fazer o vestibular. Achei a prova difícil, não pela dificuldade em si mas porque eu ainda tinha problemas para ler, demorava muito para entender o que estava escrito, principalmente quando ficava tensa e eu estava muito tensa no vestibular. Foi quando decidi não me importar muito com o que estavam perguntando na prova. Acionei minha criatividade e comecei a escrever. Eu era boa nisso, acho que num mecanismo de compensação, já que tinha tanta dificuldade para ler, eu escrevia muito bem, ainda que não tivesse ideia do que estava escrevendo...

Era Dislexia Adquirida, que eu já sabia que eu tinha mas não tinha conseguido convencer nenhum médico nem pesquisador sobre isso. Eu mesma pesquisava nas horas vagas e, na verdade, já havia descoberto o que eu tinha desde 1978 quando um amigo leu para mim um livro em Alemão. Mas eu ainda não tinha ideia do que teria causado esta Dislexia que a pouca literatura que havia, citava como genética/hereditária, impossível de ser “adquirida” como eu insistia.

Bem, mas voltando ao vestibular, terminei e entreguei a prova. Saí pensativa e demorei a ouvir uma voz que me chamava. Na verdade, não entendi ser comigo porque ela falava “psiu” e eu pensei que esse “psiu” poderia ser com qualquer pessoa. Ela insistiu:

- Ei, você toda de preto!

Ai eu percebi que era comigo. Eu tinha essa mania, me vestir toda de uma só cor. Ou toda de preto ou toda de vermelho ou toda de branco. Em compensação, eu pintava minhas longas unhas cada uma de uma cor “extravagante”... Parecia um mostruário de esmaltes.

- Falou comigo? (respondi)

- Sim. (ela afirmou e, em seguida, perguntou) - Acha que passamos?

- Eu não sei. (respondi meio avoada) – Espero que sim, senão só me restará vender alface na feira. (ela riu alto mas eu estava falando sério. Se não conseguisse passar no vestibular pensava em ter uma conversa séria com meu pai e dizer que venderia algo para meu sustento e este algo poderia ser alface na feira, o que, aliás, é um trabalho muito digno. Até porque vivíamos de rendas naquela época. Então, vender alface na feira poderia ser até um hobby)...

- Qual seu nome? (a garota perguntou, tirando-me do meu devaneio)

- Ana Lourdes mas eu não gosto do meu nome, gostaria de me chamar Soraya ou Sophie. Como não posso, eu criei um apelido: Ana Lou, ai tem gente que me chama de Ana, tem meu anjo que me chamava de Lou e, em casa, me chamam de Aninha... Tem também quem me chame de Ana Louca. E, por causa das minhas unhas longas e pintadas cada uma de uma cor, tem também quem me chame de bruxa ou Zé do Caixão...

- Puxa! (ela respondeu espantada) – Quantos nomes!!! E como gosta de ser chamada?

- Ah, não me chamando de nenhum palavrão, qualquer nome está bom. (ela riu novamente) – Ah quer saber? Pode me chamar de Analou. (estendi a mão) E você, qual seu nome?

- O meu é mais simples. (respondeu cumprimentando-me). É só Valeria,

- Legal, Valéria. Prazer te conhecer.

- Prazer é meu. (eu cai na gargalhada e a Valéria fez uma cara de quem nada entendeu. Eu expliquei) – Sempre achei esta expressão muito estranha. “Prazer em te conhecer, não, o prazer é meu”... Que prazer? A gente acaba de conhecer alguém e já sente prazer?

- É mesmo, né? (Valéria riu) - Não tem sentido!

Neste momento, avistei um aviso num grande flanelógrafo que estava ao nosso lado e ainda não tínhamos visto. Li o aviso que chamava interessados em participar do Grupo de Teatro Universitário:

- Olha que legal! (eu disse animada) - Tem vaga para o grupo de teatro... Vamos nos inscrever?

- Ué, mas a gente nem sabe se passou no vestibular. Não é melhor esperar o resultado? (ponderou a Valéria).

- Acho que é uma forma deles nos aceitarem. (respondi) - Devem estar precisando de elenco e quem puser a cara a tapa pode ter prioridade para ser aceito no curso.

- Será que funciona assim? (perguntou, desconfiada, a Valéria)

- Sei lá, de qualquer forma, eu vou me inscrever. Eu amo teatro!!! (respondi já me dirigindo à secretaria) – Já fiz até um curso de dois anos com a Berta Zemmel e o Wolney de Assis. Vem, Valeria, vamos nos inscrever.

Foi assim que conheci a Valéria e, juntas, nos inscrevemos no teste para o GT MARTUP, o grupo de teatro da nossa Faculdade Marcelo Tupinambá.

  1. Capítulo II


Uns dias depois, eu recebi um telefonema agendando uma entrevista para o grupo. Eu quis causar uma boa impressão e não me destoar das outras candidatas. Então me arrumei com jeans e camiseta, como percebera que a maioria se vestia no vestibular, tirei os esmaltes coloridos e pintei as unhas de rosa claro. E coloquei duas fivelas nos cabelos. Foi um tiro n'água. Quando cheguei lá, percebi as mais variadas roupas e estilos e entendi que eu tinha dado um grande fora. Se tivesse ido com uma das minhas roupas combinadas e minhas unhas coloridas, seria um estilo a mais. Agora de jeans e camiseta eu era “a destoada”... Bem, mas não me importei com isso e fui fazer o teste.

Conheci o Lúcio e a Sílvia. Eram casados e dirigiriam juntos a peça teatral que faríamos. Eu estava especialmente avoada naquele dia e nem lembro os detalhes de como foi o teste. Só me lembro bem que, em determinado momento, o Lúcio pediu que eu cantasse uma música e eu cantei “Foram me chamar, eu estou aqui, o que é que há”, um samba de autoria de Dona Ivone Lara, que, na verdade se chama “Alguém me avisou”. Não sei de onde tirei este samba da memória, já que eu ouvia o tempo todo, músicas em Inglês mas, enfim, foi o que eu cantei. Achei que não tinha passado. Fizeram mais algumas perguntas e o Lúcio disse que o resultado sairia em uns quinze dias, ao mesmo tempo em que estaria disponível o resultado do vestibular. Eu achei que ele estava meio desanimado e não pensei que seria aceita.

Foi uma grande surpresa quando vi que tinha sido aceita no grupo de teatro e meu nome também estava aprovado para cursar a faculdade. Eu havia escolhido a turma da noite, sempre produzi melhor a noite. E logo, as aulas começaram e também os ensaios do grupo. Então eu conheci todo o elenco. Alguns estudavam na mesma classe que eu como o caso da Cacilda Wood e do Paulinho. Outros eram de outras áreas como plásticas ou música. Lá estava a Valéria Poyares, que eu já tinha conhecido no dia do vestibular, o Gilberto Vieira, a Wanda Hamburgo, a Ângela Câmara Correia, a Regina Ribeiro, a Andréa Ana Dias, acho que a Jacymara de Oliveira e a Márcia Manfredini, vieram um pouco depois, pelo que me lembro. O Lúcio dirigia a peça e a Sílvia coreografava e ambos também participaram como atores. Ainda tinha a Celeste Kutska (que apelidamos de Celeste Kutiuska) que arrebentava tocando piano e o Celso Tera, Artista Plástico que confeccionou nossas máscaras e adereços.

No início tinha mais atores, um deles acho que se chamava Carlos, tinha um menino que, na primeira reunião de ensaio, colocou um tipo de elástico na calça boca larga para parecer boca fina e virou uma piada! Foi apelidado de “Baboo” e não apareceu mais. Coitado! Hoje eu não faria isso mas, na época, satirizamos muito aquele garoto, foi um quase bullying...


  1. Capítulo III


O grupo seguiu os ensaios e as aulas seguiam em paralelo. Eu era muito avoada e quase não participava das aulas. O maior problema era o Roberto, um Arquiteto que também era ator e lecionava desenho e plásticas. Ele era do tipo que “pegava muito no pé” e, na minha turma, eu era o alvo preferido dele. Nas outras turmas, as “vítimas” eram outras. Nas Artes Plásticas, por exemplo, era a Regina... E por ai vai. Ele chegou a dizer que queria “matá-la”. Eu hein?!.

Certa vez, na minha turma, ele pediu que levássemos um determinado material e eu já estava estacionando na faculdade quando um dos alunos se debruçou na janela do meu carro e, desesperadamente me perguntou:

- Ei, você trouxe o material que o Roberto pediu?

- Caramba, cara! Eu nem me lembrei. (pausa) o que era mesmo?

O rapaz estendeu uma lista grande e eu disse para ele não se preocupar. Que eu iria comprar. Ainda faltava quarenta minutos para iniciar a aula e eu iria correndo ao centro da cidade buscar. Ele sorriu aliviado, ia me dar um dinheiro mas eu disse que não precisava.

Corri ao metrô, que era quase ao lado da faculdade. Era a única forma de chegar logo ao centro da cidade. Em menos de 10 minutos eu já descia no metrô Sé e me encaminhava à papelaria mas, no trajeto, avistei uns collants lindíssimos. Encantei-me com eles e fui experimentar alguns modelos. Acabei comprando dois, um vermelho e um amarelo e, ao sair da loja, simplesmente esqueci do material que eu teria que comprar. Voltei ao metrô e entrei toda feliz e realizada com meus novos collants. Só quando entrei no saguão da faculdade que me lembrei do material. O garoto estava desesperado me aguardando e foi logo perguntando:

- E ai? Achou o material?

- Que material?

- Tá brincando, Analou!!! O material que o Roberto pediu! E você foi comprar, caramba!!! (só ai eu lembrei)

- Putz, cara! Sabia que tinha esquecido algo... Desculpe!

- Analou, você é a mina mais xarope que já conheci. Como você vai até o centro comprar material e esquece e volta na boa? E o trouxa aqui acreditou que você ia salvar a Pátria! Ai, acho que nem vou entrar na aula. O Roberto vai esfolar a gente!!!

- Que nada. Fica frio! A gente diz que não achou o material, poxa! O que ele vai poder fazer??? (respondi tranquilamente)

O rapaz já estava desesperado implorando para uma outra aluna dividir o material dela com ele e parece que foi bem-sucedido. Eu entrei tranquilamente na sala de aula e fiquei conversando com o Batista e outros alunos que iam chegando. Alguém levou uns metros de sisal e eu pedi um pouco. Comecei a trançar o sisal e em alguns minutos fiz um cinto bem legal. Todos aplaudiram e eu me senti o máximo pelas minhas habilidades manuais.

Neste momento entrou o Roberto, já meio enfezado. Ele vivia enfezado. Foi logo perguntando quem estava com o material completo. Todos responderam afirmativamente e, como eu não tinha material nenhum, achei que não era comigo. E continuei minha animada conversa com o Batista e outro aluno que estava muito curioso para saber como fiz um cinto tão legal somente com tranças de sisal. Nossa conversa foi interrompida pelo grito do Roberto:

- Você está surda??? (olhei para ele, espantada) – Pergunto pela terceira vez se a senhora trouxe o material que solicitei!!!

- Não. (respondi calmamente). E desculpe, eu não imaginei que estava falando comigo...

- Como não??? (O roberto gritou)

- Eu até procurei mas me encantei com uns collants e esqueci, Roberto. Desculpe! Se você permitir, posso fazer algo com sisal. Eu sou boa nisso, olha o cinto que eu acabei de fazer. (estendi o cinto no ar para ele ver mas ele arregalou os olhos de um azul meio desbotado pela fúria e gritou mais ainda)

- RETIRE-SE DA MINHA SALA!!!

- Roberto, na boa, não precisa tudo isso! (eu respondi ainda calma)

- RETIRE-SE DA MINHA SALA. EU NÃO VOU REPETIR PELA TERCEIRA VEZ!!!

Um aluno comentou meio sussurrado:

- Poxa, acho que ninguém nunca foi expulso de uma sala de faculdade...

- Situação inédita!!! (outra aluna completou)

- Ok. To saindo. (eu me levantei para sair)

- Se a Analou sair, eu saio também. (afirmou convicto o Batista)

- Eu também! Disse outra aluna (não lembro quem foi esta aluna)

Logo, praticamente a classe toda estava repetindo que também sairia comigo.

- Roberto, na boa, vamos negociar. (eu pedi mas ele gritou novamente):

- SAIA DA MINHA FRENTE, GAROTA, SAIA DA MINHA AULA!!!


Eu me levantei, peguei minha bolsa e meu cinto de sisal, era todo o material que eu tinha, e me dirigi à porta. Em seguida, o Batista fez o mesmo. Os alunos foram levantando-se e saindo todos me acompanhando. Até que ficou só o Eduardo. Pudemos ouvir quando o Roberto gritou:


- E VOCÊ, NÃO VAI SAIR TAMBÉM???

Não ouvimos a resposta que foi em um tom bem mais baixo mas o Eduardo deve ter dito que ficaria. E naquela noite ele teve aula particular com o estressado Roberto. E eu fiquei com o restante da classe na cantina tomando uns sucos, refrigerantes, cafés e papeando animadamente.

  1. Capítulo IV


Se as aulas eram estressantes e até desestimulantes, os ensaios eram animados e nosso grupo se afinava cada vez mais. Combinávamos em tudo, um ajudava o outro, éramos como uma família que se entrosava cada vez mais. Mas havia alguns membros que não se encaixavam como os demais. Então, havia alguns atritos que eram colocados para o grupo todo solucionar. E, às vezes, essas reuniões eram maçantes. Nesses momentos eu me desligava da realidade.

Eu vivia sob pressão, não só pelas falhas de memória que tinha constantemente mas por problemas particulares muito sérios. Eu tinha sido impedida de ficar com um cara que eu amava muito e que me amou tanto que morreu por minha causa. Anos mais tarde, virou um romance autobiográfico “O Anjo loiro”. Tinha sido forçada a ficar com um cara que eu desprezava e ele me ameaçava com revólver e faca se eu o deixasse. E eu tinha medo de denunciá-lo e meu pai matá-lo e ir para a cadeia por minha causa. Isso aliado a outros fatores que me pesavam na mente e no coração me tornava uma pessoa completamente dispersa. Na maioria das vezes eu estava distante da realidade. Isso era visto como uma excentricidade. O Lúcio, até comentou que eu era uma pessoa “objetiva” porque em uma reunião em que todos acusavam todos, eu me dispersei, dei uma “viajada” enorme e de repente falei, numa única frase, a síntese de tudo que tinham discutido.

Ficou parecendo que eu era uma grande intelectual mas eu nem sabia de onde tinha tirado o que acabara de falar. Eu apenas havia me desligado da realidade e, ao voltar, tive esse insight... Neste dia o Paulinho desligou-se do grupo. Acho que o Carlos tinha saído também. O elenco acabou ficando com apenas o Gilberto e o Lúcio para papéis masculinos, o restante do elenco eram mulheres.

O tempo passava e eu não conseguia me encaixar em nenhum papel. Eu estava cada vez mais dispersa, participava de diversos laboratórios mas nunca surgia uma verdadeira personagem para eu fazer. Praticamente todos os papéis já estavam definidos, A Cacilda Wood faria a Santa Clara, Andréa era a Santa Inês, Regina interpretaria a Angústia, Jacymara seria a Paz, Wanda era a noticiarista, Ângela interpretaria a mãe do Francisco, Valéria era a Joana, O Gilberto era o Nésio, a Sílvia interpretava a Maria Tereza e uma funcionária da fábrica, o Lúcio interpretava Francisco, a Márcia tinha uma personagem que não sei porque não está no programa, mas era bem engraçada, durante a cena da fábrica. Enfim, todas tinham algum papel, só eu nada tinha. Restavam apenas as ridículas, que eram mulheres que anunciariam a cachaça de São Francisco. Lembro que o Lúcio anunciou que quem não conseguisse se encaixar em nenhum papel estaria fora do grupo. E, como todos já tinham seus papéis, entendi que ele falava para mim...


Depois deste anúncio, fui para casa pensativa. Eu não queria me abrir e contar tudo que me travava, eu nem sabia direito o que me fazia ser tão extrovertida e, ao mesmo tempo, tão introspectiva. Decidi não pensar em nada e apenas criar um super texto que eu arrasasse quando encenasse. Passei a noite toda pensando e escrevendo. Até que surgiu a Maria Idiota de Carvalho. O texto já estava bastante engraçado e eu decidi incrementar com uma interpretação bem bizarra.


Treinei o texto com uma voz bem grave como se fosse de um homem e busquei nos meus guardados um vestido verde (que tinha sido de uma das minhas três festas de debutante. Sim, eu tive três festas de debutante, uma no clube, uma na casa de São Paulo e uma no apartamento da praia que meu pai me deu de presente de quinze anos. Meu irmão satirizava dizendo que meus pais me apresentaram três vezes para a sociedade e ninguém percebeu) Bem, mas voltando à produção da minha personagem, escolhi o vestido que eu tinha usado na festa da praia, um chapéu enorme verde que acho que eu tinha pego no figurino do elenco. E fiquei treinando até o próximo ensaio.


O texto dizia algo assim: Meu nome é Maria Idiota de carvalho. Sou uma mulher rica, fina e decidida. Mas apesar de toda a minha riqueza e decisão, ainda guardo algumas manias do tempo em que trabalhei na Zona Azul, antes de me casar com o Pierre Idiota de Carvalho. E uma das manias que ainda conservo é a de beber cachaça de São Francisco, todas as noites antes de me deitar... Experimente! Você toma um gole... “dos”... no terceiro gole, você começa a se transformar. No quarto gole você vai pro além... ai baixa o santo e você se vẽ totalmente solto, livre e leve... E quando você menos esperar você estará correndo pelas ruas e gritando “tome São Francisco”..

Este texto falado com tom de voz bem grave e a interpretação que desenvolvi ficaram mesmo hilários e, ao me apresentar no teste, notei que o Lúcio desandou a rir, e quanto mais eu falava e interpretava, mais ele ria até que começou a rolar pelo chão, segurando abdômen e, quando terminei meu texto. ele estava debaixo do piano ficando até meio roxo de tanto rir. Naquele dia, obviamente, eu ganhei este papel e me livrei de ser excluída do elenco.

  1. Capítulo V


As aulas corriam em paralelo, nem sempre divertidas mas necessárias. Havia um aluno já de certa idade que tinha sido aluno da ECA/EAD (USP) e nem sei porque ele resolveu retornar aos estudos. Tudo que os professores tentavam ensinar ele ridicularizava, dizia que já sabia ou que não tinha nenhuma relevância e assim arranjava briga com todos. Ele se chamava Luiz Gonzaga mas nada tinha a ver com o cantor pai nem o filho Gonzaguinha. Era só um homônimo...


Ele andava sempre com uma foto antiga do tempo em que estudou na USP. Na foto estavam nada menos do que Armando Bogus, Aracy Balabanian, Juca de Oliveira e... Luiz Gonzaga... Acho que ele se sentia mal porque seus colegas todos deslancharam nas carreiras e ele ficou. Então ele atormentava a todos, incitava grandes discussões. Certa vez, ele armou uma discussão tão grande que todos da classe se viraram contra ele. Como ele era muito alto, nós subíamos numa cadeira pra brigar cara a cara com ele. A Cacilda, ao subir na cadeira, o xingou muito e tentou esbofeteá-lo mas ele tirou o rosto do alcance dela. Na sequência eu subi na cadeira e o xinguei bastante. E, quando fui dar um chute nele, eu perdi o equilíbrio e cai por cima de um dos rapazes da classe. Não lembro sobre quem eu caí mas foi minha proteção senão eu teria me machucado muito. Esta minha queda fez todos xingarem e avançarem no Luiz Gonzaga ao mesmo tempo. E quando já estávamos no auge do berreiro ele soltou uma gargalhada e disse: “Gente, isso é teatro” Naquele dia não o matamos porque ninguém tinha uma arma mas ele sabia irritar a todos e transformar a sala de aula um campo de batalha...


A Cacilda era uma pessoa legal, bem mais velha do que a maioria de nós. Estávamos todas na faixa dos vinte anos e a Cacilda já tinha mais de trinta. Mas ela era meio estranha, às vezes. Por qualquer coisa ela tinha ânsia de vômito. E nós, ao descobrirmos isso, fazíamos umas brincadeiras bem bobas só para vê-la vomitar... Uma das brincadeiras que mais fazíamos, especialmente eu e a Andréa, era encher a boca de coxinha (sim, naquela época eu não era vegana e comia coxinha) e depois de mastigar bem nós trancávamos os dentes e deixávamos aquela gosma escorrer pelos nossos dentes. A Cacilda, olhando isso, levava a mão à boca e saía correndo e já vomitando... Nunca entendi porque ela tinha essa reação mas foi algo que guardei dela...


Mas ela parecia ter problemas bem mais sérios. Certa vez, durante uma expressão corporal, o Lúcio ficou olhando a gente e depois comentou que eu tinha muita força, que tinha conduzido a Cacilda para “onde eu queria” mas eu achava que não era eu que estava muito forte, acho que ela é que estava frágil demais e se deixou conduzir. Tanto que, uns dias depois, ela teve uma crise e se desligou do grupo. Começou a competição para decidir quem faria o papel da Santa Clara. Exceto a Andréa que já ensaiava a Santa Inês, todas as outras atrizes tinham chance de conseguir o papel. Mesmo com todas as minhas limitações, eu resolvi me candidatar.

  1. Capítulo VI


No dia da decisão, eu ensaiei bastante e fiquei por último, Não de propósito mas por insegurança. Eu era avoada demais, estava com problemas particulares seríssimos, tentei ganhar tempo para me apresentar no papel. Quando terminei minha encenação, o Lúcio pediu para eu repetir. Fiquei mais insegura ainda, pensei que tinha interpretado tão mal que ele até me mandou repetir. Respirei bem fundo, me acalmei um pouco e repeti a encenação. Nem bem terminei de encenar, o Lúcio falou calmamente:

- Gostei! O papel é seu, Analou.

Eu tomei um choque, fiquei boquiaberta, um arrepio pelo corpo todo e eu nem sabia o que dizer. Fui caindo lentamente até chegar ao chão e alguém que não lembro quem era gritando para eu não amassar o texto que era da pessoa que gritava... Fiquei meio abobada o resto do ensaio, nem conseguia acreditar que o papel era meu...


A Sílvia coreografou o espetáculo. Em uma das coreografias, nós corríamos segurando nossas máscaras nas duas mãos e, em certo momento, fazíamos umas espécies de acrobacias sempre segurando as máscaras. Eu pulava na cintura da Regina e ela me segurava também pela cintura, então eu virava de cabeça para baixo mostrando as máscaras nas duas mãos. Era um passo lindo em cena, mas era bem arriscado. Se a Regina falhasse ao me segurar, eu poderia ir de cabeça no chão. Ela não falhava mas um dia ela, na pressa, em vez de me segurar pela cintura, me segurou nos quadris. Quando me virei com tudo senti uma dor insuportável, parecia que estava rasgando meu baixo- ventre. Eu gritei:

- AIIII, rasgou minha barriga!!! E comecei a chorar. A Regina me depositou no chão e la mesmo eu fiquei chorando e gemendo ao mesmo tempo. A Sílvia, desesperada, comentou se eu tinha feito cesariana, se era a cesária que tinha rasgado. Eu nem conseguia falar direito de tanta dor mas eu disse que não era cesariana, sei lá o que era aquilo. Fui descobrir depois de ir ao médico que era um estiramento. Eu já tinha tido vários estiramentos nos braços e pernas mas nunca no abdômen. É uma dor insuportável, parece que rasgou tudo mesmo... Depois dessa, fiquei meio traumatizada e sempre que ia pular para este passo eu já ia gritando:

- Rê, me pega pela cintura!!!


Até o dia que o Lúcio falou que do jeito que eu fazia atrapalhava a música e eu tive que pular calada mas pensando pra Rê me segurar na cintura rsss

Por falar na Regina, certa vez, ensaiávamos a coreografia inicial e ela estava de meias grossas. Fez um passo super legal e foi deslizando pelo chão, parecia que ela estava flutuando. Até a aplaudimos. E ela continuou deslizando toda sorridente. Mas ela não percebeu o piano e acabou deslizando para debaixo dele. E ficou deitada, encaixada no pé do piano. Foi um passo indescritível!

  1. Capítulo VII


Éramos unidas, todas nós. E tínhamos um senso de humor apurado. Estávamos sempre inovando em matéria de piadas. Uma cena que lembro até hoje, estávamos na cantina conversando animadamente quando chegou um rapaz todo cheio de fricotes e ficou provocando-nos. Ele puxava assunto e, quando respondíamos, ele retrucava tentando provar que sabia mais do que nós. Em certo momento, ele disse que era modelo fotográfico. E que seu “nome artístico” era Hugo. A Wanda, calma e ironicamente perguntou:

- Por que esse nome, meu filho, você vomita muito?

Foi uma explosão de gargalhadas na cantina. Até quem não estava no nosso grupo riu e alguns até a aplaudiram. Nem preciso contar que o “Hugo” saiu correndo e não mais nos perturbou.

Em outra ocasião, participamos de um baile à fantasia. Não me lembro quem organizou mas me lembro de nossas fantasias e algumas cenas. Eu fui de “Rua Aurora 1920”, foi a descrição que melhor achei para minha fantasia de prostituta antiga, a Ângela estava vestida de princesa, a Sílvia de patinadora, a Andréa usava uma fantasia moderna meio punk, a Márcia vestida de homem, assim que me viu vestida do jeito que estava, me agarrou pela cintura dizendo que “esta noite eu era dela”. Eu emendei dizendo que a Márcia era “meu marido”. O Lúcio se vestiu de banhista, ou seja, foi de sunga e saída de banho. O Eduardo estava vestido de árabe, dizendo que tinha um harém mas, na realidade, estava sozinho e uma garota meio estranha que usava drogas foi vestida de Janis Joplin. Aliás, esta menina falava na Janis dia e noite, era mais do que fã, era obcecada pela Janis. Não consigo lembrar a fantasia dos outros integrantes mas todos se fantasiaram.



Antes de sairmos, fomos ao “Bar do Regis”. Era nosso ponto de encontro, bem ao lado da faculdade. Estávamos bebendo nossos drinques quando dois rapazes começaram a nos satirizar. Riam e comentavam sobre nossas roupas. Era época de copa e quase todos estavam atentos ao jogo na TV, por isso, ninguém deu muita atenção aos dois. Eles resolveram intensificar as sátiras e nós fingíamos que não era conosco. Um deles foi ao banheiro e, para isso, teve que passar por nós. Combinamos de cercar a saída e não deixá-lo sair do banheiro. Isso era fácil pois o banheiro ficava na parte anterior ao balcão e só tinha uma curta passagem até a saída do bar. Bastava uma pessoa em pé no pequeno corredor e já atrapalharia a saída dele. Imagine então dez ou mais pessoas em pé ali...



Para atrapalhar mais ainda eu abri meu guarda-chuva de frevo (que compunha minha fantasia) e ai sim que a passagem ficou impossível. Ao sair, o rapaz começou a pedir licença mas todos fingiram não ouvir. Ele ia se acotovelando, passando aos poucos pela fila que formamos até que chegou em mim, eu era a penúltima e com o guarda-chuva aberto não dava a ele nenhuma chance de passar. Ele gritava muito para eu deixá-lo passar mas eu desliguei a mente e fingi que nem ouvia. Ele foi se irritando até que tentou puxar meu guarda-chuva. Ai eu fechei o guarda-chuva, apontei-o para ele e disse com ódio:

- Se você ousar tocar em mim eu te mato, cara!!! Te furo todinho com este guarda-chuva!!!

- Ei garota, tá louca! Só quero passar. (ele gritou)


Neste momento. a Andréa, que era a última da fila, chegou bem perto dele e disse:

- Ta nervoso, gatinho? Fica assim não.

- Vocês estão me deixando nervoso. Quero passar!!! (ele gritou)

- Você deveria pensar melhor antes de zoar com a nossa cara. Agora aguenta! (eu disse irônica)

- Quem vocês pensam que são? Acham que podem impedir a passagem e ficar por isso mesmo? (ele gritou) – Vou denunciar vocês!!!

- Gente, o cara vai denunciar a gente (eu ironizei) – onde você vai dedurar a gente, bolhão? Vai chamar a polícia? Ou vai ligar pra mamãe??? (muitos risos)

- Calma Analou (disse a Andréa) não é assim, é assim, ó: Ei cara, sabia que você é o maior gato?

- Obrigado! (ele respondeu lisonjeado)

- O bolha acreditou! (eu ironizei e todos riram)

- Vocês vão a uma festa a fantasia? (ele me ignorou e perguntou para a Andréa)

- Não. Nós somos assim mesmo! (Andréa respondeu calmamente)

Não relatarei o resto do diálogo porque acabou ficando meio estranho, mas acabou tudo bem.

Os rapazes foram embora e nós fomos para a nossa festa.



Na Paulista um super congestionamento e nós espremidos em apenas dois carros, começamos a agitar. A Sílvia saiu patinando pela avenida Paulista e outros integrantes também saíram dos carros. E aproveitamos para panfletar todos para irem assistir nossa peça que, em breve, estrearia. Em certo momento, a Márcia começou a cantar (de brincadeira, claro) umas garotas que estavam no carro ao lado. E eu, ciumenta, sai batendo o guarda-chuva na Márcia, dizendo:

- Olha aqui suas barangas, este aqui é o “meu marido” e não admito que me traia com vocês. Depois de bater muito nele, eu vou pegar vocês duas, tá?

Falei isso sem parar de bater o guarda-chuva na Márcia, óbvio que eu batia de leve, mas as garotas acreditaram. Ficaram desesperadas e fecharam o vidro do carro, com a maior cara de terror. Fizemos mais algumas performances pela Avenida Paulista até que o trânsito melhorou e pudemos ir para a festa que, por sinal, durou pouco. Logo a “Janis Joplin” começou a se drogar muito e o Lúcio que cuidava de nós como um paizão reuniu todos do elenco e saímos da festa. Todos protegidos e intactos...

Numa outra festa, aniversário do Lúcio, fizemos uma encenação muito legal, imitando o casal (Lúcio e Sílvia) e, ao final, entregamos ao Lúcio um vidro de pó “amansa homem”, como se fosse um presente da Sílvia. Era uma sátira, óbvio.

  1. Capítulo VIII



A vida era uma grande festa para nós naquela época. As vezes pintávamos nossos rostos na aula da Eneida ou nos ensaios e saíamos pela rua e pelo metrô com as caras produzidas. Chamávamos muito a atenção de todos e aproveitávamos para convidar quem se aproximava para assistir nossa estreia. Quase todas as noites ficávamos no bar do Regis até de madrugada. Bebíamos cerveja, comíamos petiscos, filosofávamos, jogávamos conversa fora... Todas as noites que eu ficava com a turma, meu irmão ficava atrasando o relógio. A cada meia hora ele voltava os ponteiros quinze minutos. Assim minha mãe não ficava preocupada, quando eu chegava por volta das quatro da manhã, o relógio marcava pouco mais de uma da manhã. Devo esta ao meu irmão...

Das nossas conversas no Bar do Regis lembro pouco, apenas que nos divertíamos muito. Lembro-me de um diálogo surreal que ocorreu quando estávamos com uma de nossas professoras preferidas a Eneida Soller. Falávamos de vida noturna, como era cara em São Paulo. Alguém comentou que o mais caro da noite era o motel. O impasse começou “é mais caro”, “não é mais caro”... Uma garota comentou que achava motel bem barato no bairro dela. Um rapaz levantou-se com fúria, bateu a mão na mesa e gritou:

- Eu te desafio a ir para um motel e pagar menos do que vinte dinheiros (sei lá que moeda usávamos naquela época).

A Eneida o olhou, calma, e falou:

- Cara, isso é jeito de convidar uma mulher pra sair?

Foi uma explosão de gargalhadas enquanto o rapaz tentava explicar-se...

  1. Capítulo IX



A uns quinze dias da nossa estreia, a Ângela caiu da escada. Não sei bem como foi, só sei que foi uma grande correria para socorrê-la. Eu e a Andréa fomos levá-la ao pronto-socorro. Ao chegarmos, para agilizar, eu fui fazer a ficha dela e a Andréa foi com ela para a entrada da sala de atendimento. Até que a atenderam rápido. Como só uma pessoa poderia acompanhá-la, eu fiquei andando pelo hospital meio sem rumo. E, em meio às minhas andanças, fui olhando pelas pequenas janelas das salas de atendimento. Nunca me esquecerei da cena que vi em uma das salas. Um rapaz lindo, loiro de olhos azuis, com um brilho incrível no olhar, se agitava em uma maca. Ele tentava levantar-se mas os Médicos o deitavam de novo. Em uma das tentativas de levantar-se ele tossiu e eu notei que muito sangue jorrava do peito dele quando tossia. Só ai eu percebi: Ele estava todo perfurado de balas.

Percorri os olhos pela sala e vi a farda dele jogada em uma cadeira. Era um policial militar e, do jeito que estava, morreria a qualquer momento. Era muito sangue perdido e o peito dele estava totalmente perfurado. Uma onda de arrepios percorreu meu corpo, era como se eu pudesse sentir a morte se aproximando daquele homem lindo e agonizante... E eu nada podia fazer para ajudá-lo. Fiquei meio paralisada olhando a cena. Cada vez que ele tossia, o sangue jorrava cada vez mais. Parecia um chafariz de puro sangue... Eu queria chorar ou correr mas não conseguia. Pensei porque eu tinha que ser tão xereta, porque tinha que ficar olhando pelas salas e me deparar com esta tragédia. O policial tentou levantar-se pela última vez enquanto os Médicos tentavam fazê-lo deitar-se. Ele conseguiu sentar-se, olhou dentro dos meus olhos. Nunca esquecerei o olhar dele, parecia pedir por socorro, tossiu repetidas vezes e o sangue jorrou em cada tossida. Então o olhar dele se paralisou, o brilho sumiu e ele foi tombando na maca ainda de olhos abertos...


Eu tremia tanto que mal conseguia parar em pé. Fiquei paralisada ainda por um tempo diante daquela janelinha de vidro, vendo os procedimentos dos Médicos com o recém cadáver... Depois sai andando desnorteada pelo pátio do hospital. Peguei o maço de cigarros, derrubei alguns pelo chão e fumei todos os que sobraram, de um eu acendia outro e, em pouco tempo, tinha fumado tudo.

A Andréa e a Ângela apareceram no pátio. Acho que tinham enfaixado o pé da Ângela, acho que foi só luxação. Não quebrou nada. Eu nada falei a elas para não estressá-las mais do que já estavam. E também falar o que? Relatar que, por causa da minha curiosidade excessiva, eu tinha visto uma cena que me marcaria para a vida toda?

  1. Capítulo X


Naquela noite eu não voltei para casa. Fui a um supermercado que até hoje funciona 24 horas. Comprei um pacote de cigarros, ou seja, dez maços de cigarros e fui a uma espécie de “pub” que funcionava no pátio deste supermercado. Hoje ele não existe mais, só o supermercado permanece mas, naquela época, era uma das poucas opções que tínhamos para uns drinques e petiscos pela noite toda em São Paulo. O local costumava ser sempre cheio mesmo de madrugada mas, naquela noite, poucas pessoas estavam lá. Sentei-me em uma das mesas de canto e passei a noite fumando, bebendo e questionando comigo mesma porque com tanta gente no mundo tinha que ser eu a olhar aquele policial morrer. E aquele olhar dele me pedindo um socorro que eu não podia dar a ele... Por que tudo de mais estranho ou ruim parecia sempre acontecer comigo... Era minha bisbilhotice ou era algum tipo de sina? Em meio aos questionamentos, eu escrevia no meu diário sobre como me sentia com uma dislexia que ninguém acreditava que eu tinha adquirido. Ai vinham à minha mente, cenas de meus acidentes, os rituais pelos quais passei e a Dislexia... E, assim, misturando os temas, eu segui a noite toda...



Eu tinha me habituado a beber muito desde que me afoguei aos 16 anos, então eu conseguia passar a noite toda bebendo sem ficar bêbada, o máximo que eu conseguia era ter insônia. Minha caneta começou a falhar e eu fui até o carro pegar outra caneta. Assustei-me com um bêbado que se aproximou e perguntou quanto eu queria pelo meu carro. Respondi que não estava vendendo meu carro. Ele teimou, perguntou sobre a “placa”. Olhei a placa a qual ele se referia. Meu irmão tinha escrito um cartaz “Emoção constante, Analou ao volante”. Era uma forma de avisar as pessoas que eu dirigia perigosamente, segundo meu irmão, é claro!

- Esta placa é só uma sátira do meu irmão. Olha bem, cara! Está escrito: “Emoção constante, Analou ao volante” (respondi para o bêbado e ele olhou mais de perto) Na boa, cara. Se você está lendo “vende-se” aqui, acho que você bebeu demais, é melhor você ir para casa.

Voltei ao “pub” , continuei bebendo, fumando e escrevendo tudo que me vinha à mente... Isso aconteceu em 1982, estamos em 2016. São 34 anos e eu consigo ver a cena como se ocorresse agora. Se me perguntarem o que almocei ontem eu não tenho a mínima ideia mas cenas marcantes como esta, do policial morrendo, eu guardo para sempre...

Eu voltei para minha casa por volta das nove horas da manhã. Meu irmão não tinha aguentado passar a madrugada atrasando o relógio. Minha mãe já estava descabelada, fazendo um escândalo por causa do meu sumiço. Nós não morávamos juntos. Minha mãe morava com meu irmão na casona de três andares que um dia foi nosso lar, meu pai morava sozinho na casa da esquina e eu ficava mais na minha casa de balé. Então, os escândalos da minha mãe acabavam sempre sendo na calçada, com inquilinos e transeuntes assistindo o “teatro”. Meu pai a tranquilizou dizendo que eu já estava em casa, e riu dizendo que até que cheguei cedo, nove da manhã... Ele chamou-me para tomar café na casa dele mas eu recusei. Fui para minha cama e fiquei deitada tentando apagar a cena da minha cabeça. Nunca contei isso para ninguém. Só agora escrevo. Talvez publicar isso possa exorcizar esta cena de morte da minha mente.

  1. Capítulo XI



Nossa estreia se aproximava e o Lúcio me intimou a cortar minhas unhas. Eu argumentei, choraminguei mas tive que cortá-las. Era a primeira vez que eu cortava minhas unhas desde os dez anos quando comecei a tratá-las e mantê-las longas. Eu não as cortava, apenas lixava e eram muito longas, minhas relíquias. Mas atuar estava acima disso e acabei me conformando em mantê-las bem curtas durante toda a temporada...


Já que a Ângela não tinha tido nenhuma fratura, os ensaios continuaram a milhão. Eu tinha tido um acidente também. Tinha ficado uma semana com o braço na tipoia e ensaiava assim. Vendo os ensaios, o Lúcio achou legal se eu entrasse com o braço na tipoia durante a dança das vedetes. Acabou ficando bem engraçada minha entrada assim. Pior ficou quando, na estreia, a Valéria se desesperou, tropeçou e bateu no meu tamanco, jogando-o longe. Eu continuei dançando mancando, tentando me equilibrar num só tamanco e ainda com o braço na tipoia. Foi hilário.

Aliás, nossa estreia teve de tudo um pouco. Começou com o atraso da Regina. Ela começava sentada na plateia e deveria entrar interpretando a angústia logo após o terceiro sinal (campainha). Ela disse para a família dela que havia saído do elenco. Assim não entregaria o desenrolar da peça. Então, ao terceiro sinal, esperamos a entrada dela mas ela nunca vinha. Já estávamos desesperados quando ela, enfim, entrou em cena e interpretou. Só depois ficamos sabendo que a família dela tinha pensado que ela estava tendo uma crise verdadeira e a segurou para não entrar em cena. A Márcia, na cena da fábrica, tinha que dizer “meu marido pungou”. Ela sempre errava o texto, dizia “meu marido pingou” e ríamos muito. Ela garantia que, na estreia, ela acertaria mas ela disse novamente: “meu marido pingou” e não aguentamos e rimos em cena... Entre outros incidentes, deixamos algumas frutas rolarem do palco para a plateia na cena final.


Mas, apesar de tudo isso, foi uma grande estreia. Marcante e de uma energia extrema. Aliás, nosso grupo, que agora já se tornara uma irmandade, tinha uma energia contagiante. Vibrávamos vida, amor, união... Se um integrante entrasse numa briga, todos entravam, Ninguém queria saber o que ocorria ou quem tinha razão, todos defendiam todos. Era, de verdade, uma irmandade!


Fizemos apresentações em São Bernardo, entramos em temporada no Teatro Nídia Lícia em São Paulo e, além de outras apresentações avulsas, fizemos algumas em escolas também. Meu irmão e minha mãe assistiam a todas as apresentações. Eu pedia a eles para não irem tanto às apresentações mas eles insistiam. Chegou a um ponto em que eles se escondiam quando a cortina se abria para que não perceber que eles estavam na plateia. Bobagem deles porque, com as luzes no palco, nem dá para distinguir quem está na plateia. Até que me conformei, afinal, eram nossos fãs rsss Se gostavam tanto de nos assistir, que ótimo, eram bem-vindos!

  1. Capítulo XII

Nossa última apresentação no Nídia Lícia foi pra lá de hilária. Nós resolvemos comemorar antes das sessões. Fomos para a casa do Lúcio e Sílvia que fizeram massa e porpetas. A Regina levou pão caseiro, a Kutiuska levou gelatina de frutas. E compramos um garrafão gigante de vinho. Comemos e bebemos muitíssimo. O sono bateu e alguns dormiram pelo sofá. Outros tiveram um pequeno desarranjo estomacal... O Gilberto, em certo momento, cochilou e rolou do sofá para o chão e continuou dormindo. Nos empolgamos tanto com a comemoração que esquecemos de ir para o teatro. Já deveria ser umas sete da noite quando a Andréa disse:

- Sei lá, parece que esquecemos algo... Não sei bem o quê...

Acho que foi o Lúcio que comentou:

- Gente!! As apresentações! Que horas são?

Foi um susto geral. Todos correndo desesperados para ir ao teatro. Chegamos por volta das 20 horas e a Nemires (a secretária que também servia como bilheteira) já estava desesperada tentando controlar o público que tinha ido para a sessão das 19 horas. Com muito custo, conseguimos convencer o publico a aguardar mais um pouco e juntar as duas sessões. O Nídia Lícia era um dos maiores teatros de São Paulo. Se não me falha a memória eram 800 lugares, então daria perfeitamente para juntar os públicos.

Enquanto tentávamos nos recompor para encenar a peça, a Nemires teve a péssima ideia de recitar o “arti falante”. Era um texto que ela tinha decorado e ela falava com erros de português. Nós ríamos muito da encenação dela e, aquela noite, ela resolveu recitar para o impaciente público. Entre vaias, assovios e uma grande algazarra, ela saiu do palco e nós entramos...

Conseguimos transformar a peça num pastelão. Errávamos o texto, esquecíamos cenas... A Valéria que arrumava no chão os aventais da fábrica colocou um a mais e alguém comentou isso, que havia um avental a mais. Nós arrumávamos os adereços de tal forma que íamos usando tudo e, ao final, não sobrava nada no palco. E, com um avental a mais, óbvio que acabaria sobrando, Eu disse para ficarem tranquilos que eu daria um jeito. Quando entramos para interpretar as ridículas, na hora em que eu simulava um “santo baixando” na Maria Idiota, saí correndo e chutei um dos aventais para o lado da plateia e pude ouvir alguém, acho que foi a Sílvia, falando alto:

- Gente, a Analou chutou um avental na plateia!!

- Acho que é porque tinha um a mais – alguém respondeu.

- Como assim? Um a mais?

Imaginem que todo este diálogo em off podia ser ouvido pelo público. Mas isso foi o de menos. Durante a cena do santo jogando migalhas de pães para os pássaros, conseguimos ouvir nitidamente a voz da Regina pedindo “pães, pães”. O público não sabia mas nós sabíamos que alguns dos mendigos pediam “paz” e outros pediam “pão”. A Regina misturou os dois... Na sequência, outra patetada. A Valéria se atrasou para esta cena e, ao correr pela coxia, tropeçou e caiu de bruços no chão. O público riu muito pois o que aparecia para a plateia era apenas a cabeça dela. Ainda bem que ela foi criativa e foi se arrastando até a cena.

Enquanto esta cena se desenrolava, eu ficava sozinha no camarim me arrumando para a cena seguinte que era da paramentação das santas. Estava tranquilamente colocando minha tiara com véu quando o Gilberto passou como uma bala, dizendo:

- O Lúcio vai me esfolar!!! (o Gilberto falou uma outra expressão mas não vou reproduzir aqui, faz de conta que ele só falou que o Lúcio o esfolaria)

- Gilberto!!! (eu quase gritei) – o que você está fazendo aqui no camarim?

- Esqueci de entrar em cena, Analou. Eu cochilei e quando acordei, todos já estavam em cena. O Lúcio vai me esfolar! (pausa rápida) – eu vou entrar agora.

- NÃO!!! Giba, já passou da hora. Se entrar agora vai ficar pior. Fica na tua que talvez o Lúcio nem perceba que você não entrou.

- Vou lá – disse o Gilberto já correndo. Eu corri e o segurei pelo braço.

- Giba, fica aqui, cara!

Ele continuou correndo e eu puxando-o pelo braço acabei arrastada por ele. Quando ele entrou em cena, me arrastando com ele, eu o puxei tão forte que arranquei o paletó dele. E quase perdi o equilíbrio, me escorei na tapadeira. O público ria muito. Todos pensavam ser uma comédia.

Mais engraçada ficou a cena da paramentação. Era uma cena emocionante em que Clara (eu) falava o texto da conversão e o São Francisco (Lúcio) me paramentava. Na sequência a Inês (Andréa) também se convertia e era paramentada. As pessoas se emocionavam com esta cena, ou melhor, se emocionaram até aquela noite. Porque, nesta cena, nós nos atrapalhamos, nos enroscamos nas roupas que usávamos e nas que usaríamos na paramentação e acabamos escorregando como numa câmera lenta. Parecia que estávamos nadando na lama, de tão enrolados que ficamos nas roupas estiradas pelo chão. Foi um sufoco conseguirmos nos desenrolar, fazer as paramentações e irmos para a boca de cena, onde a cena continuava.

Para completar, o Lúcio, ao segurar nossas mãos, em determinado momento olhou minhas unhas (eu tinha tingido o cabelo de preto e minhas unhas estavam pretas), ele parou de dar o texto e disse:

- Puxa, Analou, suas unhas estão todas pretas.

- É que tingi o cabelo hoje. É tinta!

Olhamos um para o outro e depois para a Andréa sem saber porque tínhamos falado aquelas frases. O Lúcio ainda tentou consertar, voltando ao texto original em que deveria dizer que franciscanismo não é pregação, é atitude mas ele errou de novo e disse:

- Franciscanismo não é atitude, é pregação!!! (olhei para ele e acenei negativamente com a cabeça. Ele percebeu e emendou) – Franciscanismo é pregação da atitude!!!

Ao final, depois de mais umas cenas hilárias, terminamos a encenação e a temporada no Nídia Lícia. Exceto nós do elenco, meu irmão e minha mãe que já tinham assistido inúmeras vezes a nossa peça, mais ninguém percebeu todos os nossos erros e acharam a peça divertidíssima.

  1. Capítulo XIII


O ano foi chegando ao fim. As apresentações em outros locais se espaçaram. Vieram os trabalhos de final de semestre. Tínhamos que fazer coreografias para a avaliação de dança, da aula da Sílvia e eu cismei com uma música que só eu tinha ouvido e só uma vez na rádio. Era uma música de um grupo desconhecido chamado “Blitz”. A música era “você não soube me amar” que eu teimava em dizer que seria o máximo para ser coreografada. Eu ligava para as rádios, pedia que tocassem e quando tocavam eu nunca estava preparada para gravar. Até que, numa madrugada, eu fiquei acordada ligando toda hora para a rádio até que o locutor tocou a música que eu tanto pedia e eu pude enfim, gravá-la.


Se por um lado toda esta minha batalha fez uma ótima divulgação da desconhecida Blitz, por outro foi em vão. Eu gravei a música pensando em colocar o Batista vestido de mulher e o Silvano como homem fariam o casal. Já estávamos ensaiando e o Batista já estava até produzindo um super visual com botas até o joelho, uma peruca loira imensa e muita purpurina na maquiagem, quando recebemos a notícia. O Diretor (Carlos Roberto Randi) não aprovaria um casal gay na singela apresentação de final de ano. Argumentamos que não era um “casal gay”, eram atores transformistas mas não adiantou. Fomos censurados.


Mas ainda restavam duas coreografias que eu tinha feito. América do Sul (Paulo Machado com interpretação de Ney Matogrosso) e que nós dançamos com fitas e lenços coloridos. E, ao final, com jogo de luzes, imitamos pássaros levantando voo. E Ebony & Ivory - Stevie Wonder & Paul McCartney que fala da união de negros e brancos nas teclas do piano e que deveriam ser também na vida real entre os humanos. Metade do grupo se vestiu de branco, metade de preto e eu fui a figura central de preto e branco que, ao final, uniu a todos... Fomos aplaudidos de pé. Mas eu nunca me conformei por não termos podido também dançar o “você não soube me amar” Puro preconceito da direção da faculdade!!! E eu batalhei tanto para conseguir gravar a música...

Muitos anos depois a Márcia Manfredini atuaria no humorístico “A grande família” e contracenaria com o Evandro Mesquita, relatando a ele este episódio. Eu até disse que eles deveriam me pagar pela grande divulgação que fiz da banda deles quando ninguém sabia que ela existia rsss...


Mas, voltando ao nosso final de ano, o Lúcio que também lecionava no curso de Artes Cênicas pediu um trabalho de encerramento de semestre. Ele sugeriu alguns nomes do teatro para fazermos os trabalhos em duplas. Ninguém queria o Peter Brook, era o menos conhecido dos nomes sugeridos e tinha fama de ser meio “malouco” (Malouco é um termo que eu inventei para definir alguém maluco e louco ao mesmo tempo. Até porque maluco é uma coisa e louco é outra bem diferente. Um “malouco” então, é alguém pra lá de doidão... Bem, acho que expliquei bem, ne?)

  1. Capítulo XIV


Conversei com o Batista e sugeri pegarmos este nome. Ele topou. Foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Descobrimos um dramaturgo fantástico e um exercício dos loucos que até hoje eu utilizo em minhas terapias. Nós invertemos os quadros da parede, colocamos todos de cabeça para baixo. Montamos um “sofá” com as carteiras em forma de caracol. Ficou muito estranho. As pessoas entravam no caracol e, em determinado ponto, se enroscavam e não conseguiam sair. Também montamos uma “mulher” feita com carteiras. Uma carteira sobre a outra simulavam uma mulher estilizada. Nós a vestimos com algumas roupas, casacos e uma boina. Ficou como uma mulher gigante. Era nossa líder.

Cenário pronto, pedimos à Márcia que fosse até a cantina chamar os alunos que lá estavam para verem “uma exposição de arte”. Era isso que eles imaginavam que veriam mas, quando entravam na sala, a Márcia trancava a porta por fora e eles já se deparavam comigo e o Batista batendo nas teclas do piano de forma desordenada, virávamos em câmera lenta e só ai as pessoas percebiam que estávamos babando (deixamos juntar bastante cuspe na boca e a deixávamos escorrer pelos dentes, boca, pescoço. Como alguém louco mesmo). O Lúcio só conseguia repetir:

- Gente, que loucura!!!!

As pessoas (visitantes) se espantavam com nosso jeito e queriam sair mas a Márcia mantinha a porta trancada por fora. Nós nos aproximávamos cada vez mais dos visitantes e os cercávamos, forçávamos a “brincar” de roda conosco, sempre babando e tombando por cima deles. Depois os levávamos até o sofá de caracol e eles ficavam entalados no sofá. Alguns se desesperavam, gritavam ou choravam. Sempre que alguém se desequilibrava, nós corríamos até a mulher estilizada, ajoelhávamos e a reverenciávamos, como uma forma de agradecimento por mais um “fisgado”. Por umas três vezes, a Márcia liberou a porta só para entrada até que trancou de vez e ninguém mais saia nem entrava. Ai o exercício “pegou fogo”. A sala já estava bem cheia e nossa atuação espantava os visitantes. Como eles não tinham por onde sair, só choravam e gritavam desesperados. O Lúcio continuava boquiaberto repetindo:

- Meu Deus, que loucura!!!! Gente que loucura!!!

Em determinado momento uma garota correu até a janela, que estava semiaberta, abriu-a de vez e subiu no parapeito. Uma outra vendo isso, correu também para a janela. Tivemos que segurá-las e, por motivos óbvios, o exercício foi interrompido neste ponto. Mas mexeu comigo a forma como as pessoas se desequilibravam. Em um momento estavam lanchando tranquilamente na cantina e, no momento seguinte, estavam subindo no parapeito da janela, pensando em pular lá para baixo...

Foi a partir dai que eu percebi que, se um simples exercício transtornava tanto as pessoas consideradas “normais”, se o invertesse, poderia reverter casos de desequilíbrios. Foi o que fiz, inverti o exercício e passei a aplicá-lo nas terapias que eu já desenvolvia em paralelo. A princípio eu o apliquei a Síndrome de Down mas foi com os toxicômanos, anos mais tarde, que consegui os melhores resultados. Atualmente este exercício invertido é parte integrante da minha Multiterapia do Equilíbrio.

  1. Capítulo XV


Fizemos uma festa (a fantasia) de final de ano. Eu fui vestida como cigana. Assim que cheguei, o Batista que estava vestido de sheikh (árabe), já gritou:

- Analou, você está um desbunde!!!

- Ai, obrigada!

- Venha. Vamos bailar, ciganita!

A música era rápida, tipo “disco” mas começamos a dançar tango. Algumas pessoas riam, outras acompanhavam a nossa dança. Tudo ia bem até que o Batista me pegou pela cintura, me ergueu e saiu girando comigo. Ele já estava um pouco bêbado e não se equilibrava muito bem por isso saiu esbarrando em todos. Eu estava com um tamanco bem alto e, para evitar que caíssem, eu coloquei as pernas para trás em arco, ou losango melhor explicando, com um salto colado no outro. Ai ficou pior porque o Batista saiu se desequilibrando e foi batendo meus pés (com os tamancos) em todos que encontrava pela frente. As pessoas xingavam, se desequilibravam, virou um caos.


Depois resolvemos dançar num grande círculo. Em cada momento um de nós tomava a dianteira e ia fazendo os passos para os outros acompanharem. De repente a Valéria começou a fazer um passo muito louco, era meio trêmulo, agitando o corpo todo. Eu achei o máximo e gritei:

- Gente, olha que passo louco a Valéria inventou!

Todos começaram a imitar o passo da Valéria até que ela foi se abaixando e caiu no chão. Ai percebemos que ela estava tendo uma espécie de convulsão. Ainda bem que não foi nada grave. A Márcia e eu a levamos para fora para o ar da noite e ela foi melhorando. Mas foi um susto!

Antes do ano terminar, nós também nos candidatamos ao D.A (diretório Acadêmico). Decidimos que defenderíamos a “Chapa-Dos”. Pela maior liberdade e autonomia dos alunos. Até fizemos uns cartazes, espalhamos pela faculdade e fizemos uns discursos na cantina mas logo fomos “censurados” e nossa candidatura foi impugnada...

  1. Capítulo XVI

O ano terminou, vieram as férias. Preferi não viajar. Fiquei fazendo cursos de férias de balé. Aproveitei para cursar moderno, afrojazz, flamenco e participei de um workshop de dança do ventre que começava a ter cursos no Brasil. Na volta às aulas algumas surpresas bem desagradáveis. Uma semana antes do início das aulas, fui chamada para uma conversa e um comunicado na Secretaria. Eu havia sido transferida para a turma da manhã. Mas eu não queria estudar de manhã e me revoltei. Fui reclamar na Diretoria e a Maria do Carmo, era sempre ela a porta-voz da Diretoria, disse que era para evitar que algo muito ruim acontecesse. Eu insisti em saber do que ela falava e ela acabou se abrindo.

- Analou, você é uma agitadora. Sempre que tem uma confusão foi você que iniciou ou apoiou. E quando você e o grupo se juntam, vocês não tem noção do que estão fazendo. Vocês são subversivos.

- Isso é injusto, Maria do Carmo! Eu sempre fico com a fama porque ponho a cara a tapa mas todo o grupo agita junto.

- Sim, sem dúvida, todos agitam mas quem é que sempre começa? Quem é que sempre desafia? Quem é que incita os outros, dona Analou? Quer exemplos? Quem fez todos os alunos abandonarem a aula do Roberto? Quem convenceu a todos que deveriam dançar uma coreografia com homossexualismo explícito? E ainda para dançar na capela da faculdade? E aquele exercício desequilibrado que você coordenou, trancando todos na sala e que fez duas alunas subirem no parapeito da janela para se atirarem? Sabia que uma das alunas está em tratamento psicológico e outra saiu da faculdade por causa deste seu “exercício”?

Cabisbaixa, eu não sabia o que responder. Com tudo que eu já tinha sofrido nos meus vinte anos, não entendia como alguém poderia se traumatizar com um simples laboratório teatral. Ou que mal havia em dois homens dançarem como casal. Ou qual era o problema no fato dos alunos terem saído da aula chatíssima do estressado Roberto. Eu não tinha feito nada disso por mal mas o resultado parecia mesmo ser uma grande mancada... E parecia que os argumentos dela poderiam justificar esta minha transferência à revelia. A Maria do Carmo continuou:

- Parece que só sua presença já é suficiente para agitar todo mundo, Analou!!! Aquela maluquice dos Chapa-Dos foi a gota d'água! Aliás, é tanta confusão que você arma que nem dá para saber o que foi a gota d'água!!! Se quiser continuar na faculdade, terá que ser na turma da manhã, bem longe do restante do grupo. Então, vai assinar sua transferência de turno ou prefere ser convidada a se retirar da faculdade?

Muito chateada, eu tive que concordar. Assinei a transferência de turno e prometi para a Maria do Carmo que não aprontaria mais nada. Não sei se conseguiria cumprir mas eu tentaria ser mais calma e ponderada... E me conformaria em ficar longe dos meus amigos. Até porque ainda restava o grupo de teatro, ao menos, no grupo, eu teria contato com os outros integrantes. Mas a surpresa foi mais terrível quando eu percebi que o Lúcio e a Sílvia também tinham saído. Agora era um outro diretor, nem lembro o nome dele. Achei que era muita sacanagem marcarem minha transferência de turma à revelia e a saída do Lúcio e da Sílvia sem justificativa. Então eu saí do grupo, para falar a verdade nem apareci mais.

  1. Capítulo XVII


A turma da manhã era sacal, eu vivia com sono, não me identificava com as pessoas. Da antiga turma, eu só encontrava a Márcia, a Jacymara e a Valéria. Mesmo assim, esporadicamente. Para completar tinha uma garota toda certinha que era bailarina clássica. Eu também tinha sido bailarina clássica mas nunca fui toda dengosinha como ela. Acho que balé clássico não é sinônimo de “frufru”. Enfim, esta menina começou a namorar um rapaz da classe. Um dia ela veio e desabafou comigo um problema pessoal que tinha com ele. Eu ouvi e fiquei na minha. Não falei para ninguém. Ai o rapaz começou a se interessar por mim e eu topei. Putz, foi a conta para a garota virar a cara e a conversa nos bastidores que eu era uma traidora, ela confiou em mim e eu a traí e blá blá blá... Mas, para mim, nada tinha a ver o desabafo dela com o fato do cara se interessar por mim... No final, nem cheguei a namorar com o cara mas o clima ficou insustentável entre nós. Nunca entendi porque este clima péssimo se instalou.

Como se não bastasse, um rapaz, novo na faculdade, resolveu agitar um protesto estudantil. Na verdade não era bem um protesto. Era uma ação nacional em que os integrantes da UNE (União Nacional dos Estudantes) participaram da campanha pelas Diretas já. E a ação aconteceu no Brasil todo. O problema é que aproveitaram e depredaram a faculdade. Desta vez eu estava inocente. Eu faltei neste dia, aliás, eu faltava muito e quase nem participava de nada na UNE. E nem sabia nada do que tinha acontecido. Mas, quando cheguei no dia seguinte para a aula, a Maria do Carmo já me “cercou” logo na porta principal:

- Dona Analou, dessa vez a senhora extrapolou!!! Não pense que ficará como está. Já estamos tomando sérias providências e você será intimada.

- O que está acontecendo, Maria do Carmo? Do que você está falando?

- Mas como você é cínica, Analou! Dissimulada!!! Sabia que isso dá cadeia? Sabia que você pode ser presa e ter que se explicar com a polícia que, por sinal, já está a caminho?

- Cadeia? Polícia? Maria do Carmo, eu juro que não sei do que você está falando!!!

- Analou, eu não sei mais o que fazer com você. Para de mentir!!! Se você assumir o que fez, a pena será menor.

Eu me esforçava, mas não entendia sobre o que ela estava falando. Eu não ia à Faculdade há dois dias e não sabia mesmo o que estava acontecendo. Abaixei a cabeça e suspirei desanimada. Depois, lembrei-me de um comunicado que meu pai tinha escrito, assinado e autenticado. E me disse para eu levar sempre comigo. Se algum dia eu tivesse problemas com a polícia, era só mostrar o comunicado dele. Abri a bolsa, procurei pelo comunicado que eu nunca tinha usado e fiquei esperando os policiais que me “prenderiam” e já podia ver a cara que fariam quando lessem...


Porém, antes da polícia chegar, chegou o “agitador” do protesto. Era um novo aluno que eu pouco conhecia, apenas de reuniões estudantis. Ele foi entrando e olhando espantado para os “detidos”, eu e dois rapazes. Estávamos acuados, junto a parede e “cercados” pelos integrantes da diretoria . Ele foi logo dizendo:

- O que a Analou está fazendo entre os detidos?

- Você ainda pergunta? Foi esta cínica que provocou todo o tumulto de ontem. Respondeu a Maria do Carmo em tom áspero.

- Não mesmo, Maria do Carmo. - Ele respondeu – A Analou tá limpa. Ela nem veio ontem. Também não veio antes de ontem quando combinamos o agito. Ela é muito louca, e está sempre agitando todo mundo mas desta vez, ela tá limpa!

- Sério? (perguntou a Maria do Carmo) – Você não está falando isso só para livrá-la da cadeia?

- Eu não sou nenhum herói. Não livraria a barra dela se ela estivesse no lance mas desta vez ela tá mesmo limpa, Maria do Carmo. Pode crer! Fui eu que agitei e vou pagar as consequências. Que venha a polícia e vamos nos resolver. Afinal, só queremos democracia. Só isso!

Toda desconcertada, a Maria do Carmo se aproximou de mim, dizendo:

- Ô meu amor, me perdoa! (segurou meu rosto entre as mãos) – É que você está sempre agitando tudo. Pensamos que era você também agora. Me perdoa? Deixa eu te dar um beijo.

Ela me deu um beijo no rosto e eu entristeci mais ainda. Cabisbaixa, eu disse:

- Posso ter um montão de defeitos mas não sou mentirosa, Maria do Carmo. Se eu disse que não fui eu, é porque não fui eu...

Virei-lhe as costas e saí. Voltei para casa, aliás, fui para minha casa de balé onde eu praticamente morava e fiquei pensando na vida. Fiquei tentando entender porque minha autenticidade era tão punida e incompreendida... Eu nunca fazia nada por maldade, na minha cabeça tudo estava bem. Não entendia porque as pessoas interpretavam todos os meus atos como se fossem maus. Afinal, tudo e todos tem vários ângulos. Cada um percebe o ângulo que quer perceber...

  1. Capítulo XVIII


Eu tive uma recaída, voltei a ter depressão e minha memória ficou muito mais escassa. Tinha longos períodos de “ausência” e estava mais avoada do que nunca. Mesmo assim, o Eudimir Fraga, um professor já de idade mas super liberal, sempre me dava notas altas. Ele dividia a prova em duas partes. Uma com algumas perguntas e outra com a proposta dos alunos criarem um texto ou crítica de alguma peça teatral. Eu nem perdia tempo de tentar ler e responder as perguntas, eu partia direto para a crítica de texto. Certa vez, sem saber o que escrever sobre Shakespeare, só consegui lembrar da cena da morte dos dois amantes em Romeu e Julieta e discorri sobre isso. Cheguei a dizer que não havia motivo algum para as mortes. Era só eles aguardarem a maioridade e poderiam ficar juntos sem dar satisfações a ninguém. Na minha opinião, eles foram precipitados!

O Fraga elogiou-me muito por esta crítica. Ele até disse que, se dependesse da Analou, Shakespeare nem escreveria Romeu e Julieta... E me deu um nove...

Neste dia, a Cláudia não aguentou e explodiu:

- Putz, Fraga!!! A gente estuda, batalha, cola e você dá nota baixa pra gente. A Analou que é uma louca, avoada, nem sabe o que tá fazendo na aula e no mundo, você dá nota alta pra ela. Qual é o babado de vocês, hein?

- Ah, gente! Não tem babado nenhum. Confesso que, quando leio uma prova da Analou, percebo que ela não tem a mínima ideia do que está escrevendo mas ela escreve tão bem que não tenho coragem de dar nota baixa para ela... (olhou-me nos olhos e disse convicto) - E digo mais, Analou, se você controlar sua mania de pôr vírgula em tudo, você ainda será uma grande Escritora!

Não sei explicar como fiquei feliz com o comentário do Fraga. Eu tinha ficado traumatizada por ter sido aluna do Pasquale no cursinho e ele ter criticado muito uma poesia minha. Até fiquei tempos sem escrever. Agora, o Fraga me “dava um gás” danado com este comentário. Ai eu desandei a escrever muito... E me policiar para não colocar tantas vírgulas pois eu tinha mesmo certa mania de vírgulas...

Eu tinha saudade das meninas da irmandade, mas não as procurava, não queria prejudicá-las já que a diretoria imaginava que éramos subversivas juntas... Mas continuava em contato com a Márcia, a Jacymara e a Valéria. Certa vez fizeram um festival na faculdade e vieram uns cantores meio famosos. Entre eles estavam Sá e Guarabira. Lembro que a Valéria estava desesperada para conseguir um autógrafo deles e eu disse a ela:

- Relaxa, amiga! Para quê se acotovelar nesta multidão para conseguir um simples autógrafo? Lembra que você também é artista. As pessoas têm que pedir seu autógrafo. Não você se matar para conseguir um de outro artista.

Meu conselho de nada adiantou. A Valéria se meteu na multidão, acotovelou-se com todos e saiu até meio esfolada mas conseguiu o sonhado autógrafo que ela exibia como um troféu. Ela era mesmo uma pessoa especial... Aliás, todas nós éramos e ainda somos especiais rsss.

  1. Capítulo XIX

No último ano da faculdade, um dos professores pediu uma pesquisa de campo e eu, enfim, descobri que amava pesquisar cientificamente, já que pesquisava por hobby há muitos anos. A partir daí, oficializei minhas pesquisas sobre Dislexia e Multiterapia. Na sequência,   a Professora Clementina apareceu com uma grande novidade. A matéria Musicoterapia, que ela tinha trazido do exterior agora não era mais só uma matéria do Bacharelado, era um curso de formação de Musicoterapeutas. Participei da aula experimental e gamei. Fui fazer o curso dela. Mas acabei ficando só três meses, valendo como Extensão Universitária porque, também neste ano fui convidada a fazer comerciais e uma novela. E isso tomou muito meu tempo.


Eu tinha sido pioneira da TV brasileira (fui a primeira criança no mundo a gravar um vinil com apenas 3 anos de idade e também fui das primeiras a gravar vídeo tape. Hoje estou até no Museu da TV) e tinha bons contatos então foi fácil me reenturmar na TV. Mas agora eles exigiam DRT, o registro exigido para que se possa atuar profissionalmente na área artística. Era um registro tão difícil de se conseguir na época que havia até os "figurantes profissionais", pessoas que sujeitavam-se a inúmeras figurações, às vezes até sem cachê, só para juntar comprovações de trabalho e entrar com o pedido de registro.


Pensei que, se tinha cursado uma faculdade na área não precisaria sujeitar-me a isso, dirigi-me diretamente ao Ministério do Trabalho e pedi informações. Notei que nossa faculdade não constava da lista de cursos reconhecidos. Fui orientada a procurar o MEC e informar-me sobre a situação da faculdade. No MEC a situação era a mesma, a faculdade não constava como reconhecida na área teatral, apenas como conservatório musical.


Durante duas semanas, eu corri do SATED (Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões) ao MEC e do MEC ao MT e vice-versa sem nada conseguir até que lembrei-me de um número que havia visto numa circular da faculdade. Voltei ao MEC e quase enlouqueci a atendente, fazendo-a descer livros e mais livros empoeirados em que eu procurava o número que representava o decreto que reconhecia nossa faculdade na área teatral. Três dias depois, finalmente encontrei a página com o decreto em dois livros e ai esbarrei em outro problema; os livros não poderiam sair da sala dos arquivos para serem xerocados. A copiadora ficava a dois quarteirões do local e não tinha como ir com eles até lá. Armei minha melhor cara de louca e disse:

- Eu exijo que você (a atendente) me acompanhe até a copiadora mais próxima, por sinal é perto, a dois quarteirões daqui. Afinal, se eu não posso sair com os livros, você pode. Você é funcionária e tem obrigação de me ajudar, depois de eu ter ficado quase vinte dias procurando estes documentos. Se você se recusar, eu ficarei muito nervosa e não me responsabilizarei pelos meus atos!!!

A funcionária ficou meio desconcertada, a princípio parecia que recusaria mas acabou aceitando o "convite" e lá fomos nós duas carregando dois livros enormes e empoeirados pelas ruas. Todas as cópias xerocadas, eu voltei ao SATED e MT e deixei as cópias e o pedido de registro de meu DRT.

Alguns dias depois, ao retirar minha carteira de trabalho que exibia o carimbo "Artista diplomada", fui elogiada pelo funcionário do MT. Disse-me o funcionário que, se não fosse a minha grande insistência, não teria conseguido provar o reconhecimento de meu curso, não teria meu registro como diplomada e, principalmente, não seria precursora desse registro que até aquele momento só era concedido aos alunos da ECA/EAD, ou seja, da USP. E completou:

- Menina, seu ato é histórico! Todos que conseguirem DRT com diplomas desta faculdade em cursos já concluídos ou que vierem a concluir daqui em diante deverão seus registros a você. E este seu ato vai até beneficiar outras faculdades e escolas que terão base para solicitar a profissionalização de seus cursos. Você está de parabéns, menina!


Nem preciso dizer que saí do MT de nariz empinado e arrebentando de orgulho de mim mesma. Seria legal se a Maria do Carmo e os Diretores me elogiassem agora pelo meu feito mas não elogiaram, nem agradeceram. Mas meus colegas e amigos ficaram super gratos porque, a partir desse dia, eles também deram entrada aos seus registros DRT e até diziam animados que a faculdade deveria exibir um busto meu na entrada e não de Marcelo Tupinambá que era o homenageado no busto e no nome da faculdade. Acho que a ideia do busto partiu da Márcia...


Gostaria que todos vissem que, apesar de muitas loucuras, às vezes, eu fazia coisas bem legais para o bem de todos. Nesta época comecei também a aplicar a técnica de Musicoterapia em crianças autistas e com síndrome de Down e iniciei também aulas gratuitas de dança e teatro para crianças carentes. Mais um ano chegou ao fim e eu perdi contato de vez com as meninas Martup.

Cada uma de nós seguiu um rumo diferente. Quase todas se casaram. Algumas saíram do país. Eu segui entre grandes erros e grandes acertos. Não casei nem tive filhos. Preferi continuar estudando muito e, pesquisando mais profundamente, acabei detectando um novo distúrbio “Dislexia Adquirida” e sendo precursora da Multiterapia. Publiquei muitos livros, inúmeros artigos em revistas, jornais, fiz muita TV. Acho que me tornei mais conhecida na TV como Psicoterapeuta e precursora da Multiterapia do que como artista. Também viajei muito tanto física quanto astralmente...

O tempo passou rápido e, quando me dei conta, estávamos em 2013. Trinta anos tinham se passado. Mas eu podia senti-las próximas e como se o tempo não tivesse passado. Assim, em um dia de agosto, em poucos minutos, a LUZ se fez e eu consegui contatar todas as que estavam nesta dimensão. Daí para um reencontro feliz foi rapidinho...


Também desta vez, a primeira que me respondeu foi a Valéria. Mas logo, todas as outras me contataram também. E foi uma grande festa nosso reencontro...

A seguir, as mensagens que trocamos no reencontro cibernético:

Valéria PoyarestoLou De Olivier

18 August 2013 · 

Analú! Lembra desta época maravilhosa!? — with Wanda Guarani Kaiowá'Maria Regina RibeiroAndrea Ana DiasMarcia ManfrediniSilvia NavarroAngela Camara CorreaLou De Olivier and cassilda Wood. Valéria poyares 18/08/2013

1 share

35 comments

  1. Comments

Lou De Olivier Ai querida!!!era tudo que eu queria!!! To montando um acervo e tava doida por essas fotos. Se tiver mais manda agora!!! Vou postar no acervo e logo envio link pra vc. Super beijo

 · Like · 1

Valéria Poyares vc encontrou a Andrea Ana Diasaqui ela tem mais fotos.

 · Like


Lou De Olivier Encontrei mas acho que a mensagem tb foi pra "outras" rsrsrs. To aguardando ela responder

 · Like

Valéria Poyares Faltava você aqui conosco!!!! bjs

 · Like


Lou De Olivier Eu?? Acho que sou aquela perto do Giba com boá vermelho não sou eu?

 · Like

Valéria Poyares Sim, sem dúvidas , é a própria !!! kkkkk Linda

 · Like


Lou De Olivier rsrsrs agora que percebi, o Giba nao perdia uma oportunidade de agarrar alguém. Ta grudado comigo na foto rsrsrs

 · Like

Valéria Poyares kkkkkkkkkk

 · Like



Lou De Olivier Muito legal mesmo querida Valéria Poyares amei te reencontrar e rever esta foto. Vamos manter contato agora...

 · Like

Valéria Poyares Eu também gostei muito e vamos continuar nos falando sim!!! beijos Querida!

 · Like


Lou De Olivier Super beijo querida.

 · Like

Valéria Poyares <3 ;)

 · Unlike · 1

Marcia Manfredini Ana Lou Olivier, não acredito. Sempre pensei muito em vc, onde estaria, fazendo o que? Lembro que foi vc que ficou a madrugada toda acordada, tentando gravar a musica da Blitz pra nós fazermos a apresentação de "Vc não soube me amar"kkkk E a coreo que vc montou da musica "Deus salve a américa do sul"kkkk vc era muito louca. Ótima.

 · Unlike · 2


Lou De Olivier Querida Marcia Manfredini esses dias eu estava lembrando justamente destas coreografias rsrsrs Tenho uma ótima noticia, eu continuo sendo muito louca rsrsrs mas agora minha loucura ajuda outras pessoas, até detectei um disturbio novo, ja ta aceito oficialmente na Ciencia da Saude... Da uma olhada na mensagem que te enviei inbox acesse os liniks e vamos manter contato agora, rsrsrs super legal reencontrar vcs super beijo

 · Like


'Maria Regina Ribeiro Aaaaaaaamei
...pessoas, vcs lembram do cartaz que ela colocou no vidro do proprio carro?
Analu no volante, perigo constante.
Rsrsrs.
Saudacoes ANALOU!

 · Unlike · 4


Lou De Olivier Ai gente, nao acredito!!! Vcs vão revelar todas as minhas loucuras aqui rsrsrs Saudades tb 'Maria Regina Ribeiro

 · Like · 1


Lou De Olivier Precisamos agendar um café com papo pra colocar as novidades em dia... Ah e não se assustem com tudo que tenho produzido, parece que fiquei bilhardaria e virei sumidade mas continuo a mesma super simples e com muitas saudades de vcs, Marcia ManfrediniValéria Poyares'Maria Regina Ribeiro, Wanda e Andrea... Super beijo

 · Like · 2


Marcia Manfredini Maria Regina Ribeiro, Re, que louco encontrar vcs duas no mesmo dia.

 · Unlike · 2


Andrea Ana Dias Gente...fiquei pensando quem é Lou!!!! depois de 5 segundos me caiu a ficha e na seuqencia lembrei do cartazinho que a Maria Regina Ribeiro falou: Perigo constante...Analú no volante!!! incrivel, lembro da cena dela até hoje...você é especial Lou Oliver... td de bom, tô dentro pra o cafe...<3

 · Unlike · 2


Andrea Ana Dias alguém tem notícias da Silvia e do Lúcio, do Gilberto e da Cacilda????

 · Like


Marcia Manfredini Cacilda estava no meu Orkut, depois sumiu.

 · Like · 1


Marcia Manfredini A Jaymara morreu.

 · Like


Marcia Manfredini Jacymara

 · Like


Andrea Ana Dias A Jacymara eu sabia, peguei aquele livro dela nessa semana..lembra Marcia Manfredini

 · Like


Marcia Manfredini Lembroooooo, tem um poema meu lá. vergonha...

 · Like · 1


Lou De Olivier Puxa, gente não sabia... A Jacy morreu? Lamento.. A Silvia Navarro ta na minha pagina, Mas ha tempos nao responde nem me contata... o Lucio acho que nao tem face... O Giba e a Cacilda não sei... Bem o convite pro café com papo continua. Se toparem claro! Super beijo

 · Like · 1



Lou De Olivier Oi Andrea Ana Dias é que eu segui por varias áreas e como me tornei escritora tb eu coloquei Lou de Olivier rsrsrs mas continuo a mesma so que agora não tenho mais o cartaz no carro rsrsrs Vamos sim marcar o café, ja tem eu e a Andrea, quem mais topa? Marcia Manfredini'Maria Regina RibeiroValéria Poyares...

 · Like


Lou De Olivier Ah e se alguém tiver uma foto da Santa Clara e/ou da Maria Idiota de Carvalho pra me enviar, eu darei um diploma de honra ao mérito rsrsrs To montando um arquivo de memorias rsrsrs alias tem a foto minha com a minha irmã ines e o Francisco, lembra Andrea Ana Dias? Alguém tem aquela foto?

 · Edited · Like


Marcia Manfredini Eu topo tb. Acabei de entrar na pg da Silvia, ví que ela tem outa filha,o Alan já é adulto genteeeeeeeeeeeeeee.Que susto.

 · Unlike · 1


Lou De Olivier Legal Marcia!!! Assim que todas responderem vamos agendar. Ah sim, o tempo passou, as crianças cresceram... amiga!!! rsrsrs

 · Like

Wanda Guarani Kaiowá Meu Deus ! Sá a Ana Lou pra dar este movimento !!!!! Qual é a pagina da Silvia ???? Quem tem mais novidades sobre todos ???? !!!! Curiosaaaaaaaaa

 · Unlike · 2

Valéria Poyares Oi Wanda, é Silvia Navarro está mais acima..a Analú veio agitar este povo. rs

 · Unlike · 1


Marcia Manfredini Deixei um recado para a Silvia e ela me respondeu hoje. Ela e Lucio moram no interior de São Paulo.

 · Like · 1


Lou De Olivier Amadas!!! O tempo passou e eu continuo agitando e promovendo encontros rsrsrs fico muito feliz por isso e mais feliz por perceber que na verdade o tempo não apagou nossa linda amizade e união. Parece que o tempo nem passou rsrsrs. Vou escrever em pvt pra voces enviando meus fones e vamos marcar café. Super beijo

 · Like · 2


Lou De Olivier Olhem suas caixas postais do face queridas!!! Vamos agitar este café rsrsrsrs

 · Like · 1


Lou De Olivier A musica trará recordações e as frases finais do Evandro Mesquita são hilárias rsrsrs Andrea Ana DiasMarcia ManfrediniValéria Poyares, 'Maria Regina Ribeiro, Wanda Guarani KaiowáAngela Camara Correa

L


3

idia Costa, Marcia Manfredini and Andrea Ana Dias

    1. Comments

Andrea Ana Dias vamusevê!

 · Unlike · 1


Marcia Manfredini Conheci o Evendro e contei esta historia pra ele.

 · Unlike · 1


Lou De Olivier Ta brincando!!! Marcia Manfredini... Estava mesmo pensando nisso. Fala pra ele que quero comissão da propaganda que fiz do grupo dele (Blitz), ligava pras rádios, pedia pra tocar, madruguei pra gravar a musica... martelei tanto a musica na cabeça de todos e ainda fiz todos dançarem neste som rsrsrs. Ei que tal convida-lo pro nosso reencontro pra cantar ao vivo pra nós? rsrsrs o cache a gente paga em abobrinhas, será que ele topa? rsrsrs

 · Edited · Like · 2



Lou De Olivier Sim Andrea Ana Dias, vamos "sevê" rsrsrs Saudades de vcs!!!

 · Like


E mensagens que trocamos quando a Valeria fez a passagem...



  1. Wanda Guarani Kaiowá with Marcia Manfredini and 5 others.

24 September · Stockholm, Sweden · 



Valéria amiga, vai fazer muita falta !!! Meninas a felicidade morava ao nosso lado !!!


26

Marcia Manfredini, Andrea Ana Dias and 24 others

    1. Comments
'Maria Regina Ribeiro ... e só mesmo quando nosso elenco diminui é que pensamos no roteiro. 
Temos muitas falhas em nossos textos, nossa dicção anda comprometendo a compreensão, as vezes perdemos o controle do volume e das palavras, no improviso acabamos sempre magoando alguém e quando não a nós mesmos, noutras situações falamos tão baixo que como consequência não somos ouvidos, assim ficamos tristes, decepcionados sem os aplausos ou o reconhecimento. A rotina faz o espetáculo envelhecer, o brilho se esvai, o figurino se desmancha e as máscaras caem. Uma parada como a que estamos vivendo hoje é o suficiente para nós recompormos, vamos retocar nossas maquiagens, repassar os textos tão singulares e seguir pensando na apresentação maior, naquela que acontece em outra dimensão... 
Valéria Poyares, a cortina se fechou, porém, tenho fé que nos encontraremos nos próximos ensaios! ???????? Like · Reply · 4 ·


Marcia Manfredini Re, que lindo texto e tão verdadeiro qto esse realidade que estamos vendo hoje. Mas é isso mesmo, hora de retocar a maquiagem.

Like · Reply · 1 · 

Angela Camara Correa Retocar a maquiagem e fazer dos encontros uma aliança pura e verdadeira. Vamos nos dar o tempo de sermos e estarmos... JUNTAS! Juntas como estamos agora com Val em todas nossas recordações e sentimentos, conosco em todas as possibilidades de estarmos unidas, trocarmos abraços e sentimentos.

Like · Reply · 2 · 


Andrea Ana Dias :(

Like · Reply · 1 · 

Wânia Mafra Pessoas não morrem fazem a viagem mais cedo

Like · Reply · 1 · 

Lou De Olivier Queridas, só agora entrei no face e ainda estou em choque coma notícia. Não sei o que escrever. Justo agora que pretendia convidá-las (todas) pra ouvirmos juntas as duas primeiras canções que gravei aos 3 anos de idade e relancei agora... Mas, assim que passar o choque, espero ter algo melhor a dizer. E espero poder revê-las em algum momento...

Like · Reply · 1 · 







O programa da nossa peça teatral:







Algumas fotos de nossas apresentações e nossos encontros

1982



Não sei a data. A Valeria fez esta homenagem em um dos meus aniversários...



2014





Esta história não termina aqui. Aliás, esta história nunca terminará. Tenho certeza que continuaremos escrevendo muitas cenas juntas e teremos muito a produzir aqui, agora e em qualquer dimensão por onde passarmos...