Site pessoal de (Ana) Lou de Olivier 
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 Filha de Carmo Ressuto e de uma índia literalmente “pega a laço” e apelidada de Deolinda, já que como índia seu nome era desconhecido, Lourdes é descendente da família real de Reggio Calabria. 

Porém, a família Ressuto, (assim como tantas e até nobres famílias que chegaram ao Brasil no auge da imigração italiana), esqueceu-se da nobreza  e trabalhou duro para sobreviver. A principio na capital de São Paulo e quando Carmo tinha apenas cinco anos de idade, mudaram-se para uma pequena colônia italiana, que foi projetada para abrigar os imigrantes no interior de SP. Nesta cidade, ele cresceu, tornou-se professor de italiano, professor de violão mas também continuou ajudando os pais na lavoura.

Nesta pequena colônia, ele se casou e teve filhos, sendo Lourdes a primeira filha. Com o pai, ela aprendeu a tocar violão e cantar, ainda adolescente, foi trabalhar em um hospital na cidade vizinha, cursando enfermagem. Ainda muito jovem, mudou-se para São Paulo, empregando-se como governanta em uma mansão de conhecidos banqueiros.


Em uma viagem à Bertioga, conheceu Nardino que, na ocasião, estava desligando-se da Guardamoria de Santos. Namoraram e casaram-se em apenas seis meses e, juntos, fundaram a região de Vila Marari, Jd. Jabaquara e Jd. Itacolomi em São Paulo - SP - Brasil.

A historia de Lourdes se mistura a de Nardino na medida em que, desde o casamento, passaram a fazer tudo juntos e, portanto, para conhecer mais a historia de Lourdes após seu casamento, acesse o link sobre Nardino, ou clique aqui se preferir continue lendo a crônica que fiz em homenagem à minha mãe.

 Mãe - Atriz

 (uma enfermeira dedicada, grande artista plástica, violonista, confeiteira de bolos artísticos e, nas horas vagas, uma grande atriz. Esta foi minha mãe)


Ao longo de tantos anos tenho escrito fragmentos de nossa estória em poesias e contos, porém, agora contarei nossa estória tal como aconteceu. Quem sabe assim, consigamos, finalmente, seguir em paz uma com a outra.


A primeira lembrança que me vem à mente é a de meu aniversário de um ano. Acho que, antes disso, a memória das crianças não armazena nada, ao menos, a minha não armazenou. Bem, na minha festa de um ano, eu estava com um lindo vestido de renda azul clarinho, era uma renda trabalhada com fios prateados e pedras transparentes como diamantes. Aliás, esta seria minha marca registrada em festas, eu sempre era a mais destacada pelos brilhos de vestidos lindíssimos que você e meu pai escolhiam para mim e que eram comprados em lojas de noivas, como "gente grande".



Mas voltando ao meu traje, eu usava também uma coroa prateada que mal parava na cabeça já que meu ralo cabelo não conseguia detê-la e também porque, assim que o enorme toca discos foi ligado eu desandei a dançar, eu nem sabia andar direito mas me agarrava aos moveis às pessoas, a qualquer coisa que evitasse minha queda e dançei muito e só parei quando o último convidado se foi, acenando. Eu, então, olhei em volta, todos tinham sumido e eu percebi que a festa havia acabado. Cai em prantos até perder o fôlego e não conseguia acreditar que teríamos outras festas como aquela. Na minha mente, eu só conseguia pensar que todos tinham me abandonado e eu estaria largada na vida para sempre... E eu nem sequer falava direito para explicar meu tormento, só conseguia dizer: - "Bóia, tudo...eu soginha...bóia tudo".

Meu pai tentava consolar-me dizendo que eu seria tão boa dançarina quanto ele, afinal, nem sabia andar direito e já tinha dançado a noite toda e você me dava dúzias de balas enfeitadas e docinhos confeitados dizendo que o lado bom de estarmos sozinhos é que poderíamos comer todas aquelas guloseimas sem ter que dividir com mais ninguém... Mas eu não me conformava, só pensava que todos tinham ido embora, até os pobres que ficaram no portão e ganharam bolo e doces tinham ido embora. Eu estava abandonada e infeliz!


Naquela madrugada, tive quarenta e dois de febre e minha primeira convulsão e, a partir daí, meus desejos viraram ordens, não importava o que eu pedisse, por mais esdrúxulo ou inútil que fosse, eu seria satisfeita imediatamente, senão teria febre e convulsões. Mas não era algo que eu forçasse, apenas acontecia. E foi assim que me vi fazendo os mais absurdos pedidos e vendo-os satisfeitos imediatamente.


De todos os pedidos, acho que o mais complicado foi, aos três anos de idade, eu querer participar de um concurso a fantasia na TV, eu quis ir vestida de índia e você escolheu uma linda fantasia de fundo verde musgo e toda trabalhada em vermelho e amarelo, com pedras e penas nas mesmas cores. Até aí tudo bem, o problema é que estava chovendo horrores e a grande enxurrada que se formou na porta da emissora não permitia sequer que os carros e ônibus passassem, muito menos, pessoas a pé.



Olhando aquela água suja que jorrava pela rua toda, vendo outras concorrentes que chegaram bem antes da chuva começar e estavam protegidas no saguão da emissora que tinha comportas contra enchentes, olhei para você já com minha natural cara de choro desses momentos e lhe disse: - Mamãe, eu não acredito que vou ficar aqui sem poder entrar no concurso. Eu sou mesmo muito infeliz!

Eu já me preparava para chorar muito quando você me pegou no colo e disse: Você vai entrar neste emissora sim, minha filha. Abriu a porta do carro que nos levava e saiu me carregando no colo, lutando com o enorme guarda-chuva que teimava em virar com o vento. Eu olhava para baixo e via você passando pela enxurrada que quase chegava a cobrir suas pernas e via as pessoas nos olhando, incrédulas, tentando entender como e porque você estava arriscando nossas vidas para chegar até aquela emissora. E, quando chegamos até nos aplaudiram. Você estava toda molhada e suja mas eu estava intacta. E cheguei bem a tempo de ir ao palco e participar do concurso.


Fiquei possessa por ter conseguido somente o segundo lugar. Minha fantasia era muito mais bonita do que aquela "princesa" ridícula, além disso minha fantasia era novinha e a dela já estava até desbotada de tanto usar. Mas eu me vinguei a altura. Enquanto posávamos para as fotos e a coroação, eu arranquei quase todas as lantejoulas e miçangas da parte de trás da fantasia dela. Já estavam meio soltas mesmo... Claro que, sempre sorrindo para as câmeras e sem que ninguém notasse.


Façamos de conta que esta foi a primeira vez que estivemos numa emissora de TV, nós sabemos bem que nossa estória com a televisão brasileira começou muito antes do meu nascimento, antes mesmo de você conhecer meu pai, mas façamos de conta que pisamos numa emissora de TV pela primeira vez neste dia. Afinal, se gente tão importante construiu cena por cena a história da TV, que recebam seus merecidos aplausos. E prestem contas ao ETERNO...



Bem, a partir daí, passamos a frequentar as emissoras de TV e, quando percebi, eu já estava cantando, dançando e já tinha gravado um compacto simples.

Nossa, mãe, sou "antiguinha" mesmo, do tempo do compacto simples... Tão antiga que fui uma das primeiras a fazer gravação em vídeo tape, mas como não sabia o que ocorria, fiquei possessa quando liguei a TV e me vi cantando lá. Lembro-me que comecei a chorar e gritar desesperada:

- Pai, mãe, todo mundo, venham ver, fui traída, tem uma menina igualzinha a mim, vestida com meu vestido e cantando a minha música na televisão. Ai, eu sou uma infeliz! Minha vida está destruída! Eu só tenho quatro anos e minha vida já foi destruída!


Acho que você e meu pai ficaram o dia todo tentando me convencer de que era só uma gravação e aquela menina era eu. 

- Não pode ser, se eu estou aqui, como posso estar lá na televisão que é tão longe daqui!  (Eu falava e chorava ao mesmo tempo...)


Não preciso dizer que tive febre e convulsão nesta noite, não é?


Nesta época cometi meu "crime", eu estava no seu colo, tirando e colocando minhas pulseiras de ouro que já estavam meio apertadas porque eu estava meio gordinha. Ao colocar uma das pulseiras, minha mão escapou e meu dedo foi direto no seu olho e unha de criança é pior do que gilete então já deu para perceber que furei seu olho. Foi uma grande correria para te socorrer , depois de uma longa operação que eu assisti na íntegra, voltamos para casa, você usando um enorme tampão no olho e eu chorando e dizendo:

- Eu furei o olho da minha mãe, eu sou uma assassina, vou ser presa pela polícia, vou ficar trancada na cadeia.



Você me tranquilizava dizendo que eu não seria presa por isso e que foi um acidente, mas eu insistia dizendo:

- Eu sou mesmo uma criminosa, sou muito vaidosa, se não fosse minha vaidade não ia usar tantas pulseiras, não ia furar seu olho, o médico não ia passar manteiga no seu olho com aquela faquinha e a policia não ia me levar...

Quase enlouqueci me escondendo cada vez que a campainha tocava e eu imaginava ser a policia para me prender. Mas os dias passaram, você retirou o curativo, se recuperou e eu acabei esquecendo meu grande crime.


Eu ficava mais famosa a cada dia, ganhei alguns prêmios e troféus e caminhava para o estrelato até o dia em que fui cantar numa cidade do interior. Deveria cantar no clube da cidade mas a multidão que apareceu para me ver era tão grande que resolveram me colocar cantando no coreto da praça e deixar o público ao ar livre. Assustei-me muito com a multidão naquela praça. Eu ia cantando e pensando em como conseguiria sair dali ao terminar. Quando cantei a última música (pela terceira vez, já que pediram bis), pensei:


- Agora ou saio daqui ou morrerei pisoteada...


O público pedia "bis" mas eu disse que estava cansada e queria ir embora, procurei por você e não a vi, devo admitir que foi meu pai quem me salvou mais uma vez. Suspirei aliviada quando o vi subindo a escada do coreto, me erguendo e colocando-me em seus ombros. Eu via o público estendendo a mão, tentando me tocar e alguns gritavam e aquela cena começou a me deixar nervosa, eu chorava e só pensava em sumir dali. Assim que chegamos ao hotel, em prantos eu disse: 
- Papai, não quero mais cantar, nunca mais, as pessoas ficam me agarrando e gritando e eu tenho medo disso.



Foi uma briga feia entre você e meu pai até decidirem que eu não apareceria mais em TV alguma e minha carreira já estava encerrada aos quatro anos de idade, mesmo assim, você continuou me levando às emissoras, sem que meu pai soubesse, até eu completar sete anos. Até ganhei um quadro num programa infantil, lembra-se?

Era um sufoco esconder de meu pai que eu continuava na tv. Quando estava na hora de passar meu quadro, inventávamos desculpas para sair ou fazer algum jogo ou qualquer coisa que desviasse a atenção dele da tv. E, naquela tarde de domingo que ele cismou que veria o programa onde eu fazia meu quadro e, enquanto assistíamos o início do programa, você soltou um gritinho e caiu desmaiada. Eu não sabia se ria ou se ajudava meu pai a te socorrer.


Não acreditei que fosse tão boa atriz. E meu pai nunca desconfiou dos três anos em que estive na TV depois da "decisão" de nunca mais pisar numa emissora... E, depois deste dia, você não perdia uma oportunidade para desmaiar e roubar a cena, né mãe?


No fundo, éramos duas grandes atrizes, deve ser por isso que, na minha adolescência começamos uma disputa sem fim e acabamos nos desviando uma da outra... Ou, talvez, por causa da anoxia que sofri, nossos rumos se distanciaram.


Eu tinha quinze anos, tinha acabado de passar por três festas de debutante, uma que meu pai fez na casa de São Paulo, outra no apartamento da praia e outra no clube, meu irmão satirizava dizendo que você e meu pai tinham me apresentado à sociedade por três vezes e, nem assim, fui notada...


Bem, depois de fazer você correr como nunca e quase enlouquecer uma das costureiras, consegui ter meu vestido com frente de borboleta para a festa da praia, outro vestido de alça transversal para a festa em São Paulo e aquele belíssimo vestido da casa das noivas transformado, pelo estilista, especialmente para que eu usasse na minha festa de debutante no clube.


E, em seguida, eu me preparava para participar de uma festa de debutante de uma amiga que morava em outra cidade e lembro-me que uma das últimas coisas que escrevi a ela foi: "Não esqueça de me enviar os modelos e cores dos vestidos das participantes. Já imaginou eu me produzir toda e chegar na festa e encontrar outra menina vestida igualzinha a mim? Vou cair mortinha no meio da festa".


Pouco depois daquele baile de debutante veio um dos piores acidentes que sofri, meu afogamento e minha anoxia. O que era festa e alegria virou uma grande escuridão. Só conseguia pensar que eu não existia, havia morrido no dia do meu afogamento e esta que aqui estava não era eu, era outra pessoa. Cada vez que você me levava a um médico, geralmente, um grande especialista que se gabava de curar tudo e todos, eu pensava. "Hoje é um dia especial. Vou consultar o Dr. Fulano e voltarei a existir". Mas, ao final de cada consulta, eu voltava infeliz e decepcionada porque o grande Dr. Fulano não sabia o que havia comigo e eu continuava "não existindo".


Foi assim que fui fazer teatro para tentar recuperar a memória, e lembro-me que, desde que estreei e em todos os dias, você e meu irmão, eram os primeiros a chegar, tanto que, ao final, vocês até se escondiam para que eu não visse que vocês estavam novamente na platéia, mas bobagem de vocês, com as luzes no palco eu só conseguia vê-los ao final... E, claro, não posso me esquecer dos lindos presentes que você comprava e levava para mim a cada estréia. Vocês levavam presentes, quase sempre joias e flores...



A minha memória não voltava, parecia enfraquecer mais a cada dia e era comum eu sentir-me como se, de fato, eu não existisse. Estava cansada de passar por médicos (já havia passado por vinte e cinco), passar por "esdrúxulos rituais religiosos" de várias seitas e religiões que diziam-se capazes de me curar... 

Um dia, entrei em depressão, tranquei-me na minha casa de balé (casa que ganhei do meu pai para guardar minhas fantasias, figurinos e dançar sossegada) e desandei a fumar e beber. Um ano se passou, emagreci, adoeci e as únicas imagens que me lembro são a de você me levando comida na minha casa e deixando na porta, meu pai levando-me cigarros e bebidas como vodka e vermute e também deixando na minha porta porque eu não queria ver a cara de ninguém... Só sabia que tinham estado lá pelos bilhetes que deixavam...

Em algum momento nesta época, eu fiz um juramento. "Não sei que desgraça é esta que me aconteceu, não sei qual a cura ou qual será meu futuro, mas eu juro que vou descobrir o que é isso, vou me curar e vou contar para todo mundo como me curei" Acho que, neste momento, nasceu a multiterapeuta que acabaria batendo de frente com tantas teorias obsoletas, com tantos experts que, na prática, não curavam ninguém.


E, se esta guerra me custou um AVC, outro coma, uma pressão incontrolavelmente alta e uma série de limitações, inclusive financeiras, já que passei a investir tudo o que tinha em estudos e pesquisas, tornou-me uma pessoa muito melhor, vendo a humanidade como um todo, pensando no bem estar de todos e não olhando para meu próprio umbigo como tantas pessoas passam a vida fazendo.


Deve ser por isso que nos distanciamos, querida mãe. Eu me transformei em uma pessoa múltipla e você continuou sendo apenas uma ótima atriz. Talvez por isso nunca mais tenhamos conseguido subir ao mesmo palco e contracenar uma com a outra. Mas, tenha certeza de que guardo de você uma bela imagem de mãe, amiga e cúmplice, ao menos nos meus primeiros quinze anos de vida... E esteja hoje onde você estiver, siga em paz, pois eu me encontrei e hoje também caminho em paz...



By Lou de Olivier 05/08/2007 
Parte integrante da biografia autorizada de Lou de Olivier